meu adeus

Quintal das Tias

Mudar para outro país requer muito mais que planejamento, empacotamento e exercícios constantes de desapego de seus bens materiais. Requer a terrível noção de “choque de realidade”, aquela de que as vezes você não vai poder ter um abraço da sua mãe, acompanhar seus sobrinhos crescerem ou estar ao lado das pessoas que ama quando você e elas precisam. Por outro lado, as despedidas tornam-se verdadeiros rituais e, em alguns casos, temos uma oportunidade quase que única de dizer “adeus” e “obrigado”.

Há semanas venho trabalhando nesse blog: estudando a plataforma, escolhendo formatos, cores, fontes, definindo uma linha editorial pra me guiar, fazendo uma lista de “pautas”, etc. Praticamente gestando mais um filho. E aí, perco uma das principais responsáveis por eu estar aqui, escrevendo… minha tia Lina. Inspiração maior não dava pra encontrar. Com o coração apertado, entendi que era um sinal e a hora de começar. Antes de qualquer outra pauta, precisava falar dela e de como é difícil ver parte de sua história partir e não estar lá.

Angelina era professora. Foi com ela que tomei gosto pela leitura, que aprimorei minha caligrafia, que aprendi ler jornal. Ela não lecionava mais quando eu nasci, mas tinha todo o tempo do mundo pra nós – seus sobrinhos-netos. Assinante do Estado de São Paulo até hoje, guardava pra mim as edições domingueiras do “Estadinho” e, anos mais tarde, me ligava pra dizer que tinha uma foto minha na coluna social do jornal O Município, o qual ela também é/era assinante, ou que havia gostado de ler meu texto. Se enchia de orgulho ao ouvir suas amigas comentarem que me viram na televisão. A Tia Lina sempre morou naquela casa na Avenida. Me lembro que ela se esquivava de beijos na face, mas acabou cedendo aos sobrinhos e sobrinhas persistentes. Nos recebia com sorrisos e puxões de orelha quando ficávamos muito tempo sem aparecer ou, sutilmente, quando sentia que precisava passar um recado moral. Para sua sorte, a audição foi se prejudicando com a idade conforme os equipamentos de som para carro ficaram mais potentes. Ela raramente aceitava passar a noite fora de sua casa. A Tia Lina nunca se casou, acho até que não teve namorado. Viveu uma vida humilde, de devoção à família e a Deus. Ahh… ela sabia como ninguém tudo sobre todos os santos e santas, todas as Nossas Senhoras e todo mundo que tem relacão próxima com o Todo Poderoso. Brasileira, filha de pais libaneses, tinha nesta culinária seus pratos preferidos. Eu ouso dizer que um de seus grandes sonhos, era ver um de nós visitar o Libano.

“Querida” …  só a gente sabe porque as lágrimas foram contidas quando nos despedimos da última vez.

Uma vez eu li, vi ou ouvi em algum lugar a seguinte frase – “as vezes quando você ganha, você perde” (sometimes, when you win, you lose).  Pra viver meu amor, deixei meu país. Quando ganhei meu filho, perdi minha “alma gêmea” e agora começo esse projeto sem minha principal revisora. Os caminhos da vida são estranhos, mas, por experiência, aprendi que eles têm suas razões e, por mais clichê que seja, quando a gente acredita tudo dá certo.

2 comentários sobre “meu adeus

  1. Gable´s, minha amada e querida amiga…. que felicidade te encontrar aqui. E que lindo este texto. Por que não continua tua homenagem para a tia Lina, escrevendo e enchendo nossa vida, do lado de cá, com tuas belas palavras e textos tão recheados de sabores? Tenho certeza que ela ficará muito feliz em saber que a sobrinha-neta seguiu o que ela ensinou.

    Saudades amiga!

    Beijos na testa!

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    • Prii aí amiga!!! Acredite, meus olhos se encheram agora. Eu quero tanto continuar com o blog, mas não encontro inspiração. Sinto que acabei de receber um mega empurrão seu. Saudade Grande e obrigada.

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