Crônica de uma Doença Crônica

Esse é um dump dos últimos dois meses. Os meses mais longos da minha vida até o momento.

Ontem eu estava no Brasil. Era abril, final de semana de Páscoa. Hoje, acordei em Nárnia e já é quase agosto. O tempo passou. A neve derreteu. A primavera veio e foi embora. O verão ainda esquenta este canto do Hemisfério Norte. E a gente?

A gente continua pálido, sem dormir direito, enjoado de comer Panera Bread e mais enjoado ainda do trajeto casa-hospital-casa.

Assim tem sido a realidade na minha Nárnia: começamos um novo capítulo de crônicas, agora dedicadas ao Crohn — que, ironicamente, entra no hall das doenças chamadas crônicas.

Antes de falar sobre a Doença de Crohn, vale entender o significado da palavra "crônica". Uma condição de saúde recebe esse nome porque é de longa duração, persistindo por meses, anos ou até por toda a vida. Exige acompanhamento contínuo, tratamento e, muitas vezes, adaptações na rotina. Isso não significa que a pessoa estará doente todos os dias, mas que aprenderá a conviver com algo que precisa ser monitorado ao longo do tempo.

A Doença de Crohn é crônica e autoimune. Faz parte das chamadas doenças inflamatórias intestinais e provoca uma inflamação persistente no trato digestivo, alternando períodos de remissão e de atividade. Indivíduos com Crohn podem viver sem saber que têm a condição, até que ela se manifeste na forma de uma crise gastrointestinal. A confirmação do diagnóstico vem depois de exames detalhados e da análise de especialistas.

Até aí, confesso que nada era novo para a gente. Conhecemos o Crohn muito intimamente. Para ser sincera, não fosse por ele, a gente — a minha versão de família — nem existiria (mas isso fica para uma outra história). O que vale compartilhar neste momento é que essa condição é presente e ativa na vida do meu marido e da minha sogra desde que os conheço.

E aí, ontem era abril e minha sogra estava em crise — o que chamam aqui de flare-up. Hospital. Hotel. Estrada. Cirurgia. Pós-operatório. Administrar medicamentos e cuidados. De repente, acordei e era 10 de junho e, confesso, até ali tudo ia bem.

Dia 10 de junho de 2026, e aqueles 50% de chance…

Você já tentou imaginar o que acontece com o Yin e o Yang se uma mancha vermelha como sangue atravessa sua composição?

Eu nunca tinha imaginado. Não até o dia 10 de junho. Dali em diante, sinto que destravei uma nova fase da vida adulta, muito além do conhecido “boss fight”. Vivi medos que não queria viver. Imaginei a vida sem ar, sem cor, sem razão. Chorei lágrimas secas. Entreguei o controle. Afirmei que poderia até me vender.

E aquela famosa CULPA. Culpa de mãe. Culpa de pai. Será que a gente poderia ter evitado?

Filhos. Filhas. Filha. Filho. Filhes.

Já dizem os mais velhos: “Eles só dão trabalho nos primeiros 60 anos.”

Que desespero!

A distância, pela primeira vez, pesou. A vida de estrangeira, desta vez, bateu errado. Faltaram-me palavras. 

E, ainda assim, eu não estive só. Eu nunca estarei só. 

Alcançamos o final de julho.

Amém. 

E você, já viveu um período em que o tempo pareceu parar por completo? Se fizer sentido para você, me conta nos comentários. 

Visual: Motorcycle heart shaped mirror, reflects other two riders behind.

Junho: Mês do Orgulho e Reflexão sobre o Amor

Um Trator Chamado Junho

Eu adoro que Junho marca o mês do orgulho LGBTQIA+. Eu adoro Junho. Aqui e aí. Adoro o clima de Junho, a diversidade de Junho, os coloridos de Junho. Se de um lado chega o verão, do outro vem o inverno com fogueira de São João, bandeirinha e quentão. Pessoalmente, acho que as celebrações de Junho são mais gostosas, com musicas que aconchegam e comida que desperta memórias.

Motociclisticamente” falando, Junho é o mês de Babes Ride Out East Coast e do Thousand Island Rally. Dois eventos (aqui nos EUA) que são completamente diferentes – em todos os aspectos, exceto por serem “de moto” – e os meus favoritos. Em Junho, a moçada sai de férias da escola, a gente volta a nadar, e dá até pra reclamar do calor um dia ou outro.

Foi em Junho que conheci algumas das amigas mais importantes que tenho aqui nos EUA. Foi em Junho que dei meu primeiro beijo, e também em Junho que acredito ter engravidado. Neste Junho de 2025, ganhei novas irmãs de estrada e vida; e recebi a Jø para uma temporada de tia e sobrinha.

No Brasil, Junho tem Dia dos Namorados, e celebração pra Santo Antônio. A gente fala de amor. A gente procura o amor. Mas aqui esse dia já passou, e era outro santo o homenageado.

Junho é a meia, da dúzia de meses que a gente ganha a cada ano. Merece uma reflexão?

Na Sessão de Terapia

Eu falei da minha jornada de espiritualidade, minha crença no que é Divino e universal. Falei sobre a igreja (Católica-Apostólica-Romana e Maronita) que me ensinou, me ensina, e que é parte de quem eu sou. Falei sobre ser Mãe, mais especificamente, sobre minha importância dentro da minha familia, no bem-estar e na formação do ser-humano que eu escolhi gerar e criar. Falei sobre minhas faltas, minhas influencias, e meus desejos femininos. Falei sobre meu marido “unicórnio” que não tem cú. Falei sobre o que me amarra, minha pertinência com o tema campo vs. urbano. E falei sobre representação.

Tudo isso porque no meu blog the Maio (que eu só consegui escrever em inglês), eu quero questionar o fato de Maria (a mãe de Jesus) não ser mencionada como parte do triangulo da Santa Trindade e não consigo. Gerou pauta pra terapia. E a pauta desenrolou como o parágrafo ai de cima.

Por que estou te contando isso?

Porque é Junho. Porque sim. Estou te contando por amor. Porque foi nesse Junho, aos 47 do primeiro tempo, que entendi que amor é a cola que junta, que aceita, que acolhe, que questiona, que compartilha, e que faz crescer.

Amar é Aceitar.
Amar é Circular.

E circulo não tem ponta. 🙂


Cidadã da terra

Em Junho serão dez anos que sai do Brasil. Enfim, agora eu sou também Americana. UAU. Essa parte da minha exploração de vida foi território desconhecido, e putz…. foi dificil de assimilar.

Entenda, para mim, essa questão de outra cidadania era mais profunda que estudar, passar na prova, ir ali e fazer um juramento. Sou uma pessoa leal, e embora esteja triste e desapontada com os rumos que o Brasil vem tomando – mais sob o ponto de vista social, porque politicamente eu desisti há 12 anos -, tenho orgulho e um amor tremendo por minha terra verde e amarela. Dai a colocar outro território dentro dentro desse pacote. UAU… foi mentalmente hardcore. 

Mas quer saber: eu fui lá, eu fiz. Sozinha.

E tudo isso, enquanto passava por aquele momento super clichê na vida de uma stay-at-home mãe, que acabou de fazer 40 anos, e que optou super pela vida doméstica. Mas… que agora quer novos propósitos de vida, uma nova carreira talvez, e não sabe bem o que, onde, como, e quando fazer.

Ha! É “sarna pra se coçar” que chama, né? 

Felizmente, quando eu comecei com a “sarna” ou com essa vontade de mudar, que é bem pessoal, dois elementos já me eram bem definidos: por que e por quem a mudança. Fato é: Brasileira ou Americana, meu coração encontrou seu lugar, num canto enfiado numa floresta, próximo do Rio que deságua no mar. Aqui faz frio igual o Alaska, tem pica-pau e urso igual do desenho, ônibus escolar amarelo, Amish, Maple Syrup, foi inspiração para clássicos do Bob Dylan, e tem um espetáculo da natureza chamado Outono.  

Demorou um pouco pra eu entender que meu território desconhecido, na real, estava mais relacionado com um re-posicionamento pessoal e profissional, do que com o fato de passar por todo o processo de naturalização.  Foi como dizer “adeus” para uma parte de mim, para dar espaço ao novo, à nova. Foi como perder para ganhar. My personal Waterloo (ai ai ai… ABBA songs). 

Explico.

Sabe lá no começo, quando eu te falei que tenho um estranho hábito de começar de tras pra frente? Então… Minha história com esse pais começa muito lá atras, antes mesmo de eu saber quem eu era. Tem relação com meu amor por cultura pop, por cinema, por televisão, por rock n’roll, pela arte do storytelling e a revista Rolling Stones; minha admiração por pessoas como Walt Disney, o Hugh Hefner (guilty), a Oprah e a Ellen DeGeneres; a Nora Ephron (suas histórias e personagens); e até minha frustração por não vestir bem um jeans Lewis 501.  

Minha história com os EUA vem da minha admiração por seus preceitos de liberdade e igualdade (mesmo sabendo que a, as vezes, realidade não é bem assim). 

E ai como se não bastasse isso, foi aqui que aprendi pilotar moto, e nasceu aqui aquele com quem minha alma se aquietou. Coisa de amor ninguem explica. Tenho quatro amigas brasileiras aqui. Regulamos em idade e consequentemente geração. Somos felizes consequencias de uma juventude vivida durante os anos 90. Todas nós nesta terra inóspita, de duros invernos. Aqui porque nos apaixonamos por um garoto do North Country. Um amor desses pelo qual vale a pena jurar lealdade.

Então eu deixei meu cabelo crescer. Hibernei com a floresta, e fui entendendo a troca de estações: as cores do Outuno, o silêncio do Inverno, a renovação da Primavera, e a liberdade do Verão. Reconheço os ciclos. Eles se repetem, eles se renovam….

“Cantoflorvivência”

(Tempo, de Orides Fontela).

Esse não foi, e nem é, um caminho fácil. Escolhas tiveram de ser feitas, e consequencias vieram com elas (boas e ruins). Porque a vida é assim mesmo, as vezes a chuva estraga a festa. Mas a gente precisa dela, no matter what.

A vida imita a arte, porque a arte é feita a partir da vida. Não me iludo acreditando que já conheço o fim, o que eu faço é imaginar e criar meu caminho. Se minha alma se aquietou, minha criatividade ganhou o estímulo do novo. Na floresta, aprendi ouvir o silêncio – o “universofluxo”.

 Quero comunidade, quero amor ao próximo, respeito e igualdade. 
Vou com foco, força, e fé.
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