Aqui vai um exemplo (na minha opinião) de como NÃO conduzir uma entrevista. E, o que é pior, ainda tentar se fazer de vítima do entrevistado. Vamos lá… na contra-mão do que esse artigo tenta, só serviu pra aumentar minha admiração pelo Tarantino, que não se vende a moralismo barato. Esse tipo de violência, que parece acontecer mais aqui nos EUA, vai muito, mas muito mais além, da questão do porte de arma ou filmes violentos. É preciso analisar como um todo, que envolve desde a inversão de valores em uma sociedade altamente consumista até o distanciamento das famílias.
As vezes o timing do mercado americano me assusta. Pra você ter uma idéia, o inverno nem bem começou; faz uma semana que as temperaturas por aqui praticamente não ultrapassam os 0˚C; nas cidades dessa região os montes de neve acumulada nas ruas e estacionamentos são verdadeiras montanhas (em alguns casos, mais altas que as próprias construções) e, então, pra surpresa dos consumidores mais distraídos bíquinis, maiôs, saídas de banho e toda a moda praia necessária já começam ser exibidos nas prateleiras. Já os itens de frio, pasmem, somem. Desaparecem.
Tudo bem, essa pode ser a lei da selva capitalista e, enfim, esse é o berço de tal regime. Mas bom senso não faz mal. Até va lá, colocar os artigos de primavera/verão pra fora, especialmente, nos estados de calor e nas cidades de grande fluxo turístico. Mas quando não encontramos roupa de frio, quando a temperatura é de -11˚C, aí vira piada. O pior que esse caso serve apenas de ilustração. Esse é um país temático e é preciso estar no ninho da vida americana pra entender o que eu digo. Praticamente tudo gira em torno das festividades. Não entendeu? Vou explicar.
Bom.. acabamos de passar o Natal. Então saem as luzes e entram os corações, Valentine’s Day é dia 14 de Fevereiro. Depois saem os corações pra dar lugar aos trevos e às tradições irlandesas pra se comemorar, no dia 17 de março, St. Patrick’s Day. Daí tudo se pinta em tons pasteis, como se uma maré de baby colors invadisse a paleta de cores, é Páscoa. Então chegam os meses de patriotismo, amor a bandeira e as cores azul, vermelha e branca: 4 de julho, verão, férias. Em agosto, é hora de substituir a alegria do verão pelos tons de outono – marrom, abóbora, amarelo, vermelho – e, por falar em abóbora, o tema é Halloween, seguido bem de perto por Thanksgiving (Ação de Graças). Passado Thanksgiving, é hora de deixar tudo vermelho e branco, de combinar o cheiro de maçã e canela com a decoração de Natal. Aliás, de setembro até fevereiro, o setor de decoração temática de absolutamente todas as lojas desse país é invadido por Caveiras, Perus e Papais Noel.. uma loucura.. tipo todo mundo brigando por um espaço na prateleira. E então… bom, daí começa tudo de novo.
aromatizador Bath and Body Works – “Spice”
Essa troca da decoração, quase que uma devoção aos eventos do ano, é parte do comportamento local. Salvo exageros, muito bacana de observar. Do Halloween ao Natal, as cidades ficam lindas, coloridas, iluminadas. Super convidativas pra caminhadas e passeios de carro. E não é só o visual que muda. A decoração é multi-sensorial: pra cada estação e celebração do ano existe um cheiro, que pode vir de uma vela, de um difusor ou de sprays. Opção é que não falta. Pra mim… as velas de Maçã e Canela são imbatíveis no quesito “lar doce lar”. Se você estiver interessado procure pelos produtos da Yankee Candle ou os aromatizadores da Bath and Body Works.
Decoração e Aromas a parte. Se você está a passeio pelos EUA, fica a dica: essa é uma excelente época do ano pra fazer compras. As lojas querem eliminar seus estoques de inverno, os produtos que não saíram no Natal e estão de olho nas tendências do verão conforme o que vende mais. Prepare o bolso e, pra não cair em muita tentação (o que é dificil), faça uma lista das coisas que você realmente está procurando. Bom.. mas mais sobre esse tema, em outro futuro post. Até 🙂
Um dos meus principais desafios nessa vida norte-americana é enfrentar o rigoroso inverno de Nárnia*. Essa noite, por exemplo, os termômetros já marcam -19˚C e a previsão é de que essa temperatura caia ainda mais. Dentro de casa, tudo lindo. O sistema de aquecimento é excelente, uma vez que as casas são construídas tendo como uma de suas prioridades um bom isolamento térmico; necessário não só pra manter residentes aquecidos, mas, também, para evitar altas contas de gás (necessário para o sistema de aquecimento). Informações técnicas à parte, o ponto é que é mesmo muito difícil passar por praticamente 6 meses de frio intenso. Mais difícil ainda quando se tem uma criança… porque, entendam, o problema não é a criança passar frio, o problema sou eu – totalmente desinformada dos costumes – colocar roupa demais na criança e fazer com que ele comece transpirar loucamente no meio da neve. O aprendizado nessa situação é constante e nada melhor do que ter bons amigos e vizinhos pra ajudar.
Esse ano entro em meu quarto inverno. E o que no início era um verdadeiro calvário agora já me traz muitos sorrisos. No fundo, o aprendizado torna os meses de inverno mais divertidos e muito mais interessantes. Somos como crianças que estão aprendendo a andar. É preciso descobrir as tradições do frio. Aprender os esportes. Retirar o sapato cada vez que você chega na casa de alguém (para não deixar a casa toda suja com a neve que veio na sola e vai derreter). Estocar comida, principalmente quando se vive mais isolado dos grandes centros (porque se vem uma nevasca é melhor ficar em casa por alguns dias a dirigir no meio de tanto gelo). Não se importar com o estado estético do carro e dar prioridade para veículos com tração nas quatro rodas. A gente aprende que, a não ser que você fique do lado de fora por muito tempo, mesmo com as temperaturas congelantes não é preciso muita roupa. Aprendemos, ainda, que uma boa bota de inverno não é a mais bonita, mas sim aquela que mantem seus pés aquecidos, secos e ainda evita escorregões; descobrimos o poder fashion de chapéus, toucas, boinas, luvas e lenços. Também aprendemos retirar neve com a pá (por sinal, um ótimo exercício pra queimar calorias), passar snowblower (máquina que “assopra” a neve do caminho) nos arredores da residência; e a deixar um cobertor e um scraper (ferramente pra limpar gelo e neve dos parabrisas) no portamalas do carro. E na minha lista particular desse ano estou descobrindo as “delícias” de paramentar uma criança para brincar na neve… tente colocar uma luva em uma pessoa de um ano e meio e depois me conte sobre experiência.
clássico “cherry ChapStick”
Ah… e o grande must have das temperaturas baixas: ChapStick. Esse bastãozinho, muito similar a um baton, faz milagres pra sua boca. Qualquer farmácia, supermercado, lojinha de aeroporto, gift shop, banca de revista, enfim.. qualquer lugar vende. São baratinhos e ajudam demais. São unisex. Vai no bolso, na bolsa, na carteira, onde couber e estiver ao alcance das mãos. Vale a pena. Por isso, se alguém vai passar uma temporada nessas bandas, trate de adquirir o seu antes de colocar o nariz pra fora.
E embora o inverno nessa parte do hemisfério norte seja muito rigoroso, ele deixa pra quem vive aqui e, principalmente, para àqueles que vem de fora, uma grande e importante lição: a de que a natureza é sábia e por isso deve ser apreciada. Mais bacana que ver as crianças em guerras de bola de neve num snowday (quando as aulas são canceladas, para evitar que os onibus escolares trafeguem com estudantes no asfalto escorregadio); é ver a vida voltando pós hibernação, ver as árvores que pareciam mortas florirem novamente. Legal ver como qualquer motivo é desculpa pra se estar outside. Essa é a terra do picnic, das gincanas, de parques, de camping, do Zé Colméia. Se o inverno americano é muito do que vemos na Tela Quente de Natal, a primavera e o verão são exatemente os filmes da Sessão da Tarde durante as férias de julho.
*Nárnia – costumo referir à região onde moro como Nárnia, da série “As Crônicas de Nárnia”.
Essa região, Northern NY, especialmente durante o inverno, me lembra algumas cenas do filme 🙂