Menina Namoradeira 

Foi muito frequente, durante todo o meu crescimento, ouvir as seguintes frases: 

  • “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” 
  • “Não fez mais do que a sua obrigação”
  • “A porta de casa é serventia da rua” 
  • “Varre, varre, vassourinha” 

Ergue um dedo quem nunca ouviu uma dessas. 

Essas daí, em particular, eram constantes na minha vida e vinham direto de pessoas muito próximas e queridas. Por isso, não vou te dizer que não me afetaram. Emocionalmente falando essas frases foram tão presentes no meu desenvolvimento, que elas funcionaram como combustível: ora inflamavam de forma destrutiva, ora, e acredito que na grande maioria das vezes, inflamavam mesmo meu ego propulsor e construtivo. 

Desde muito pequena, minha consciência soube que se era assim que funcionava o sistema democrático no qual eu vivia, eu iria mudar a minha democracia. E daí, contrariada, ia chorar um pouco no meu quarto, de porta fechada, som “no talo”, caneta e caderninho. 

Sou uma GenWTF (whattafuq). Fossa e caderninho são super a minha cara. Sou uma mulher latina branca, de classe média, com educação superior. Nasci primogênita de uma geração inteira no meu lado paterno, o que vem com uma certa responsabilidade na minha formação católica-romana e maronita. Minha família de raízes libanesas e européias, é cheia de mulheres fortes, matriarcas na melhor definição da palavra, que tiveram “juízo” e obedeceram pra poder mandar. 

Foram-se eles. Ficaram elas. Na cabeceira da mesa da copa, entre uma refeição e outra, uma “xícrinha” de café, e a administração de muita gente em um caderninho de anotações. Eu era pequena e assistia de longe. Encantada com o tamanho dessas mulheres que tiveram “juízo”. Quantas vezes foi para debaixo dessas mesas que eu corri em busca de sombra pra me esconder?

A minha percepção das coisas começou mudar depois que meu primeiro e inevitável beijo aconteceu, uns seis meses depois da primeira menstruação. UAU.. o que é esse rush chamado “hormônios”? Adorei. Pra ser mais precisa, eu viciei. Não demorou muito e veio meu primeiro namorado. Ahh.. young love. E, assim, a chave virou. Eu queria liberdade, independência, aventuras. Queria fazer mountain-bike na Serra da Mantiqueira, acampar na cachoeira, comprar um carro, ganhar o mundo. Eu queria mandar na minha vida. 

Só tinha um detalhe: o juízo das mulheres da família não é genético. 

Falta de juízo, muito beijo na boca, e independência 

A dinâmica familiar em casa funcionava assim: meu pai trabalhava fora, cerca de 10-12 horas por dia; e minha mãe era dona-de-casa responsável por quatro filhos (três mulheres e um homem), toda a administração da casa, e os corres de banco do negócio do meu pai. Ele fazia o dinheiro, e ela fazia o cuidar. 

Meus pais sempre foram muito presentes e, de um jeito meio torto, de estimular o diálogo em casa. Sempre me pareceram preparados para a nossa evolução sexual, desde que mantidos seus padrões ainda bem definidos pela igreja católica e os valores da sociedade patriarcal na qual, os dois, cresceram e, ainda, vivem. 

Eu vivia, então, esse momento de novas descobertas e percepções. Foi nessa fase que descobri que sou o que hoje classificamos de uma mulher-hetéro-cis. Ou seja, eu sou mulher, me identifico mulher, gosto de homem, e sexualmente quero alguém com pênis. 

Eu descobri também que “quem manda” é também quem tem a grana. Por mais abertos ao diálogo que meus pais fossem, em casa, a última palavra era deles. Algo que conflitava diretamente com minhas descobertas em torno do “juízo”. Eu passei a ver dinheiro como uma fonte de controle e, consequentemente, poder. 

Muitas vezes, pra não negar um pedido, meu pai respondia assim: “Quer fazer, faz, mas não com o meu dinheiro.” 

Enquanto isso, eu ia vivendo e cumprindo as fases da vida de uma típica adolescente de classe média nos anos 1990: colegial, intercâmbio (berra privilégio), vestibular, faculdade, primeiro emprego, primeiro carro, aluguel de casa, e, claro, namorados. 

E eu, confesso, gosto de namorar. Gosto de beijar na boca, de andar de mão dada, de receber mensagens perdidas no meio do dia. Gosto do nervoso da conquista, do mistério da paquera, e daquela “apaixonite” de quando dá um “match” no ficante. 

Transparência: não sou da época de “match” 

Fico meio envergonhada em contar que eu não saberia dizer com quantos caras eu fiquei na minha vida até o momento. Também não lembro de todas as transas. Mas sou do tipo que consegue palpitar sobre a possível “pegada de um cara” a julgar por seu calçado de escolha (técnica adquirida com uma das minhas Carols). 

Eu namorei muito. Namoros longos. Namoros curtos. Namoros relâmpagos. Teve namoro que foi uma merda, e, mesmo assim, refletindo no passado olhando o meu presente, eu não mudaria uma vírgula. Aliáis, se hoje eu sou e estou onde estou, aceitar o meu passado e tudo que aconteceu nele faz parte. Ou seja, boys lixo me fizeram o favor de mostrar o que eu definitivamente não queria pra mim. Enfim, continuando…. 

Quando um relacionamento na minha vida entrasse na classificação “namoro”, a pessoa em questão teria um (ou mais) encontros com frutos da minha árvore genealógica. E, em certos períodos, meu juízo estava, claramente, afetado pelos hormônios da vida jovem-adulta, e todas as possibilidades diante de mim. 

Nesse período, minhas tias-avós gostavam de pegar no meu pé sobre a constante troca de namorados. Eu ficaria falada na cidade. Uma delas, em particular, adorava cantar a música da “vassorinha”, insinuando que eu passava de mão-em-mão. Claro que eu me irritava. Mesmo assim eu ria. Um sorriso complacente, sem graça e sem vontade de justificar meus atos. Olhava pra elas com tristeza nessas ocasiões. Sabia que, da forma delas, elas tentavam me proteger de línguas afiadas, de gente que não pagava minhas contas. À esses eu não devia satisfação. E à elas, o respeito não me deixava dizer que eu preferia ficar falada a me contentar com alguém que não me enxergasse como igual.   

Adulta e com salário, minha relação com meus pais e o balanço de poder em casa foi mudando. Eu já não era parte das despesas. Entrei na era da independência. Não me cabia mais os horários da casa dos meus pais, as coisas a que devia reportar. Me apontaram a porta algumas vezes, até que sai. Foi no tempo certo, com a pessoa errada. 

“Juízo de criança, morre louco”

Grandes paixões, amantes que viraram amigos, amigos que viraram amantes. Muitas desilusões e coração partido. Felizmente, meu compasso moral nunca deixou de priorizar meus valores. Mesmo explorando o território, eu tinha algumas certezas: a primeira era de que eu queria um relacionamento de amor, cumplicidade e amizade; a segunda que eu só procriaria com um cara que entendesse que filho é de dois. Eu sempre quis pendurar a vassoura em uma porta sem cadeados. E varri muito terreno até pendurar minha vassoura em uma porta incrível, sob medida, aos 31 anos.  

Aliás, no dia de nosso casamento religioso, que aconteceu pouco mais de dois anos depois de nossa união e com a presença do nosso bebê de, então, de seis meses, a mesma tia-avó que se preocupava com minha compulsão por limpeza, me confessou durante as festividades que antes da cerimônia ela estava preocupada com os meus trajes de “noiva”, uma vez que eu claramente não era mais virgem. Conforme sua confissão se aproximava do climax final, vi seu rosto se iluminar em uma crescente euforia: “… E daí, abriram a porta da igreja, e …”, ela segurou minhas mãos, “.. e você estava de vestido curto”. 

Ainda criança eu entendi que, nessa sociedade, manda quem tem poder e obedece quem não tem alternativa. Minhas alternativas foram: amor, educação, e uma dose de rebeldia pra não passar desapercebida. Poder assim como juízo é algo relativo e vem em diferentes formas e tamanhos e minha obediência definitivamente não passa por ali. 


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