Pequenos Passos no Corredor

Hoje acordei com passinhos no corredor. Melhor, devo chamar de passões – stump, stump -. Meu filho, de 4 anos, acordou, e, pela primeira vez, foi ao banheiro sem seu tradicional “Mommy… I need to go potty” (Mamãe, tenho que ir ao banheiro). Da minha cama pude fiscalizar a ação – um pouco pelo reflexo do corredor no espelho do quarto e outro pouco por audição mesmo (ahhh… dos super poderes que ganhamos com a maternidade, super audição é um dos meus preferidos). Ele baixou a tampa do vaso, sentou sozinho, fez xixi, deu descarga (óóóó...) e subiu a calça SOZINHO!!!!

Você lendo isso pode estar pensando: “_sério!!! E daí? Aos quatro anos meu filho já até fritadava um ovo e você celebrando o fato do seu ter ido ao banheiro sozinho” … Bom, sim estou. Porque embora ele vá ao banheiro sozinho há mais de um ano, ele ainda tem o costume de me avisar e de pedir ajuda pra subir a calça todas as vezes. Mas não é o fato de ele ter tomado a inciativa que me alegrou. A “ida” independente desta manhã me ajudou entender que meu pequeno passou mais uma fase na vida dele, e isso explica muita coisa, especialmente as brigas que temos travado ao longo s últimas semanas.

Sério… gente.. quem merece personalidade de criança de 4 anos. O meu, da noite pro dia, entrou numas de: quero ficar sozinho, não estou falando com você, quero meu pai, sai, quero meu pai, não gosto dessa comida, quero meu pai, e, pra completar, também passou a fazer caretas, aprendeu bufar, e tentou (já umas duas vezes) me colocar pra pensar no canto. Ouuu.. e não é fácil! Concorda?! Se por um lado tem esse menino crescendo (saudavelmente) por outro tem uma mulher que há quatro anos está aprendendo ser mãe, e tem hora que essa mulher quer é sair correndo.

Então, nessa manhã, quando ele acordou, não me chamou, fez seu xixi, cuidou de todos os pormenores que seguem o ato, e se instalou confortavelmente na frente da televisão da sala… meu coração se aquietou e eu suspirei… meu pequeno menino, agora é um menino. A rebeldia passou a fazer um certo sentido. E por mais que eu, no meu papel de mãe, queira estar por perto, proteger e ajudar, entendo que as fases mudam e que agora é hora do passarinho tentar novos voôs. De qualquer forma… “MOMMY”… eu ainda tive que levantar da cama quentinha e ir até a sala. Afinal de contas, ele ainda não guardou qual o botão que liga a TV.

😉 Até!

o homem de bigode

Porque me atrevi cortar as madeixas (mesmo sabendo que a preferência dele era pra que permanecessem longas), me deparo certa manhã, com um homem de bigode circulando pela casa. “Gostou?” …. hummmm o que eu responderia. Acho que a expressão de estranheza na minha cara foi tamanha que, antes mesmo que eu tivesse tempo de elaborar uma honesta, porém polida resposta, escuto a seguinte explicação: “Temos que mudar, experimentar ser diferente não é mesmo! Você, por exemplo, mudou seu cabelo”…. hãh… Ok. Naquele momento (alfinetada) foi preciso uma dessas famosas engolidas à seco e, já que não dava pra ser sincera, pelo menos administrei uma resposta polida: “Vamos esperar um tempo e ver se consigo me acostumar” (sorriso amarelo).

Nesse caso duas verdades. A primeira: eu detestei o bigode. A segunda: sou a favor do direito de expressão em, praticamente, todas as suas formas (e, nesse caso, o bigode se encaixou como uma delas). Eu pinto a unha, uso maquiagem, não tenho sapatos e bolsas suficientes, costumo mudar a cor do meu cabelo com certa regularidade, acessorizo* minha produções com lenços, colares, brincos, pulseiras, anéis, etc… tudo pra me sentir bem e expressar minha personalidade. Ele é do tipo tênis, jeans e camiseta básico, com forte tendência a variações nos cabelos faciais, mas que, até então, se atinham aos estilos sem ou com barba e à diferentes formas e cumprimentos da mesma. Sem barba e com bigode era a primeira vez.

O homem de bigode. O “meu” homem de bigode. O meu que se tornara um estranho. Ficou quase impossível ter uma conversa séria com ele, porque eu não conseguia parar de olhar para o bigode. Com um sentimento horrível de culpa (por que eu fui inventar de cortar meu cabelo?), só me restava torcer pra alguém fazer o grande favor de ser sincero e polido no meu lugar. “Não, esse bigode não lhe caiu bem”. Mas essa sorte eu não tive.

Por cerca de duas semanas e meia eu lutei, tentei com todas minhas forças abraçar a causa do bigode na família. Me consolei com a realidade e até apoiava os discursos pró-bigode…afinal ele, o dono do bigode, é o amor da minha vida. Mas então ELA chegou, com sua falta de paciência e dramaticidade avassaladoras: TPM – a inimiga número um de maridos, namorados, irmãos, colegas de trabalho e bigodes.

Estava na hora de desabafar sobre o bigode. A conversa polida, mas não muito honesta, começou comigo reclamando do meu próprio corte de cabelo e como eu andava me sentindo feia e desinteressante (estratégia meninas). Lágrimas rolavam.

“Você parece que nem gosta mais de mim. Está distante. Fala verdade, é meu cabelo”… pobre marido, não sabia o que dizer… “O que você está falando, eu gostei do seu cabelo. Você está bonita. Todo mundo está falando bem sobre o corte”… e era verdade (modéstia a parte), mas eu ainda tinha que chegar no bigode… soluçando resolvi pular para o objeto principal do argumento.. “mas então por que toda vez que eu tento falar algo sobre seu bigode você automaticamente retruca falando sobre o meu cabelo?”… pobre marido.. “What???.. O que você quer dizer?”… bang!!! mission accomplished … Enxugo as lágrimas, me aconchego entre seus braços e … “Baby, honestamente, não está rolando. Esse bigode é bonito e tal, mas não combina com você, ou até combina, mas eu não consigo me acostumar. É como se você estivesse em outra pessoa. Será que dá pra deixar a barba crescer novamente?. Eu gosto mais de bigode com barba e, olha, você pode deixar o quão comprida quiser”… sorriso.

A barba estava à caminho e, com o peso dos bigodes fora da minha consciência, deu pra relaxar e incorporar a mulher do homem de bigode por mais alguns dias.

Até 🙂

*acessorizo: essa palavra não existe pessoal. Eu inventei pra usar no texto, com base na palavra em inglês “accessorize”, que é o ato de combinar acessórios com sua roupa. Tenho certeza que na gramática da língua portuguesa esse tipo de ação tem um nome, mas eu não lembro e pesquisando online também não encontrei.

meu adeus

Quintal das Tias

Mudar para outro país requer muito mais que planejamento, empacotamento e exercícios constantes de desapego de seus bens materiais. Requer a terrível noção de “choque de realidade”, aquela de que as vezes você não vai poder ter um abraço da sua mãe, acompanhar seus sobrinhos crescerem ou estar ao lado das pessoas que ama quando você e elas precisam. Por outro lado, as despedidas tornam-se verdadeiros rituais e, em alguns casos, temos uma oportunidade quase que única de dizer “adeus” e “obrigado”.

Há semanas venho trabalhando nesse blog: estudando a plataforma, escolhendo formatos, cores, fontes, definindo uma linha editorial pra me guiar, fazendo uma lista de “pautas”, etc. Praticamente gestando mais um filho. E aí, perco uma das principais responsáveis por eu estar aqui, escrevendo… minha tia Lina. Inspiração maior não dava pra encontrar. Com o coração apertado, entendi que era um sinal e a hora de começar. Antes de qualquer outra pauta, precisava falar dela e de como é difícil ver parte de sua história partir e não estar lá.

Angelina era professora. Foi com ela que tomei gosto pela leitura, que aprimorei minha caligrafia, que aprendi ler jornal. Ela não lecionava mais quando eu nasci, mas tinha todo o tempo do mundo pra nós – seus sobrinhos-netos. Assinante do Estado de São Paulo até hoje, guardava pra mim as edições domingueiras do “Estadinho” e, anos mais tarde, me ligava pra dizer que tinha uma foto minha na coluna social do jornal O Município, o qual ela também é/era assinante, ou que havia gostado de ler meu texto. Se enchia de orgulho ao ouvir suas amigas comentarem que me viram na televisão. A Tia Lina sempre morou naquela casa na Avenida. Me lembro que ela se esquivava de beijos na face, mas acabou cedendo aos sobrinhos e sobrinhas persistentes. Nos recebia com sorrisos e puxões de orelha quando ficávamos muito tempo sem aparecer ou, sutilmente, quando sentia que precisava passar um recado moral. Para sua sorte, a audição foi se prejudicando com a idade conforme os equipamentos de som para carro ficaram mais potentes. Ela raramente aceitava passar a noite fora de sua casa. A Tia Lina nunca se casou, acho até que não teve namorado. Viveu uma vida humilde, de devoção à família e a Deus. Ahh… ela sabia como ninguém tudo sobre todos os santos e santas, todas as Nossas Senhoras e todo mundo que tem relacão próxima com o Todo Poderoso. Brasileira, filha de pais libaneses, tinha nesta culinária seus pratos preferidos. Eu ouso dizer que um de seus grandes sonhos, era ver um de nós visitar o Libano.

“Querida” …  só a gente sabe porque as lágrimas foram contidas quando nos despedimos da última vez.

Uma vez eu li, vi ou ouvi em algum lugar a seguinte frase – “as vezes quando você ganha, você perde” (sometimes, when you win, you lose).  Pra viver meu amor, deixei meu país. Quando ganhei meu filho, perdi minha “alma gêmea” e agora começo esse projeto sem minha principal revisora. Os caminhos da vida são estranhos, mas, por experiência, aprendi que eles têm suas razões e, por mais clichê que seja, quando a gente acredita tudo dá certo.