A Jornada de Voltar a Escrever

Por que eu parei de escrever? Tenho me feito essa mesma pergunta há quase quatro anos. No princípio pensava que era algum tipo de ‘bloqueio criativo’, mas também me recusava a entrar nessa caixa. Daí me acomodei com a preguiça de escrever. Me soava uma explicação honesta, fora da caixa. Porém perigosa, pois me colocava num lugar acomodado. 

Foram meses (e meses). Aí voltei para o ambiente do trabalho tradicional – escritório, ponto, carga horária, hora extra, chefe, relatório, festa da firma, e retreats -, tudo isso em inglês, que é o idioma de onde eu moro. E, assim, deixei de escrever de vez. Com um motivo legítimo e inquestionável. 

No meu trabalho eu escrevia. Não sobre o que eu gosto, nem mesmo sobre assuntos que domino. Minha escrita era engessada, desconfiada, e – o pior – dentro da caixinha chamada ‘compliance’.  

Nesse entretempo, o planeta terra continuou girando em torno do sol. Os meses viraram anos. Tivemos pandemia, blizzards, viagens, perdas e ganhos. Meu cabelo clareou. 

Aquela eu que tinha deixado de escrever, não era mais a mesma. E a nova eu, mesmo diferente, ainda gostava de escrever. 

Voltei a me perguntar: por que eu parei de escrever?

Levei o assunto pra terapia. Até que… todas as letras que contive presas entre meus pensamentos e meus dedos não couberam mais nesse curto espaço e explodiram. 

Guébie, a estranha

Não é fácil se adaptar no estrangeiro, especialmente quando a gente AMA a nossa terra natal. Já tenho mais de 15 anos aqui. Já passei por todas as provas sociais que me permitem ser ‘local’ e, mesmo assim, sou tão estrangeira nessa terra, quanto essa terra é para mim. 

Por que eu deixei de escrever? 

Porque sim. Porque minha vida foi entrando por outros caminhos, e eu me permite segui-lós pra ver onde iria. Eu deixei de escrever para explorar outros formatos, outros idiomas, e uma outra Gabi (que em inglês soa Guébie e escrevem Gabby). 

Deixei de escrever em português, para aprender a escrever em inglês. Mas acabei aprendendo que não escreverei certo nem em uma e nem em outra se eu não escrever. 


visual: desktop out of focus.

Das coisas que não publiquei (Parte 2)

Escrevi o texto abaixo para fazer meu balanço de 2024. Guardei.
Acho que esse é um momento oportuno para resgata-lo do meu bloco de notas e colocar assim, ao vento cibernético.


2024

Não quero fazer textão, mas não posso deixar passar minha reflexão de 2024 (escrito em 31 de Dezembro de 2024).

Hoje é meu primeiro dia em uma nova fase de vida sem vínculos empregaticios. Começarei 2025 leve e completamente dona de mim. 

Pensando sobre ciclos e jornadas, sobre movimentos, sobre minhas idas e vindas. 2024 foi um ano de realizações. Ironicamente, e porque vivo uma vida bilíngue, foi um ano de realizações em português e ‘realizations’ em inglês. 

2024 foi um ano que começou bem e que fluiu como planejado. Mas daí, lá por meados do ano, algo mudou. Me percebi olhando mais pra fora, que pra dentro, e querendo mais de coisas que preciso de menos. Senti no físico o peso de uma angústia que não é minha. E enquanto isso, tic-toc, o relógio continua. 

Acho que perdi um pouco de empatia durante esse ano. Por razões que, por agora, não sei colocar em palavras. 2024 foi um ano sociológicamente cansativo. 

Em 2024, nós (eu + minha família) rodamos. Entramos o ano com a familia do Brasil, visitamos e recebemos amigos, fotografamos corrida de bicicleta, casamentos, gente, bichos, comidas e autos. A gente realizou a viagem mais nerd (e, diga-se de passagem, mágica) da nossa vida. Conheci Las Vegas e achei overrated. Passamos o ano saudáveis, não atrasamos as contas, e a geladeira só sofreu porque tivemos preguiça de ir ao supermercado. Pra finalizar e colocar uma cereja no bolo: ainda consegui trocar minha moto pelo modelo que tinha colocado como objetivo.  

Enfim, como disse no começo: um ano de realizações. 

Porém, tudo isso possível, claro, abrindo mão de algo que, para mim, é essencial: equilíbrio. 

E eis que a luz da ‘realization’ (plim) acendeu. Felizmente, antes do fim do túnel. 

As vezes, quando a gente ganha a gente perde. 

A palavra ‘realization’ em inglês pode, entre outras traduções, estar relacionada à percepção, constatação de algo. Em português, ‘to realize’ é o verbo constatar. 

Ou seja, em 2024 cheguei a importantes constatações sobre mim. Constatações tipo estas: eu sou competente pacas, mas não sei equilibrar profissional e doméstico; eu tenho dificuldade em falar ‘não’ e, consequentemente, fico com um monte de projeto pela metade; eu cheguei até o tão falado ‘lá’ (pelo menos dentro dos parâmetros que estabeleci pra a minha vida).  

Em 2024 constatei que minha ambição profissional é ter e ver meu trabalho publicado com meu nome na capa. Pronto. Do mais, quero é cuidar do meu jardim: regar as plantas, aparar as beiradas, trocar óleo, polir o vidro, guardar a decoração de Natal.  

Enfim, eu constatei que meus valores mudaram, meu foco mudou, a carreira que há vinte anos fazia tanto sentido, hoje não se encaixa. Sou outra. E constatei que meu grande e absoluto Poder esta no meu ‘poder escolher’. Privilégio maior desconheço. 

Sim, escolher deixar um emprego estável pra voltar a administração doméstica não remunerada é pra mim um previlégio enorme. Pois ele só é possível porque: 1. tenho apoio e amparo emocional e financeiro; 2. deixar um emprego, não significa deixar de produzir. 

Portanto, para 2025 ao invés de retreat, eu toquei o restart. Sem amarras. Sem destino. Sem agenda. Sem horários. Quero fazer as ‘pazes’ com minhas ideologias, e, dar asas para minha criatividade. Para 2025 quero retorno e recomeço. 

Cantoflorvivência!