Nada

Uma crise de saúde na família. Uma crise de saúde com o meu filho. 

Dias a fio sem resposta, sem uma noite inteira de sono, sem o conforto de saber que ele dorme tranquilo no quarto ao lado.  O barulho de conversas animadas em partidas de video-game, substituído por um silêncio que chega a doer.

Visual mostra um quarto de hospital e as pernas cruzadas de pessoas.

O que está acontecendo? 1, 2, 3, 4, … 23 visitas ao banheiro. Falta de apetite. Falta de vontade. 

E a gente sem dormir. Nós e ele. 

Não tem horário pra consulta. Não tem como descobrir. Vamos pra emergencia. 

Dali só saímos com resposta. E essa veio: úlceras. Não uma, nem duas, são algumas, espalhadas por sessões do colon. 

A gente volta pra casa com meias respostas e sem medicamentos, 

As crises pioram. Sete dias, cinco quilos a menos, e a visita que selou o diagnostico de Chron’s. 

Ele ainda não esta bem. 

Nada me preparou pra isso. Nada. 

Em nossa família a doença não é novidade, é genética. Por isso, sempre houve, da nossa parte, uma atenção maior às reclamações de dor de barriga. Côco, em casa, não é tabu, é excremento que fala e traz informações. 

A médica me lança um olhar de contentamento: “Você fez certo Mãe, agiu rápido.” 

Ainda assim, ele não melhora. “Rápido? Como?” 

Estamos de volta no hospital. Dia três. Esperando um medicamento surtir efeito, enquanto o outro – supostamente mais apropriado – espera ser aprovado pela burocracia doente do sistema de saúde norte-americano. Burro-cracia. O país da liberdade, da democracia, da busca pela felicidade, e berço do capitalismo tem, na saúde, uma máquina de fazer dinheiro que joga com a vida alheia. 

Saúde aqui é commodite. Talvez seja por isso que ao invés de chamarem de plano, chamam de seguro de saúde. E mesmo assim, são as pessoas do escritório de contabilidade que vetam ou aprovam a decisão do médico.

Hoje cancelei meus compromissos profissionais para o mês de Julho. Amanhã já não sei.

Por agora eu sou só a mãe dele. 

Tendência: Tomates

Eu tenho notado uma discreta invasão de tomates pelas prateleiras “trendizêras” que me cercam. Eu mesma, que sou adepta de um toque vermelho no meu dia-a-dia, não resisti ao meu impulso capitalista e trouxe pra casa uma sacola de sisal com a temática estampada nas laterais. 

Foi uma compra dessas por impulso. Vi a sacola pendurada logo ali na linha dos caixas da loja. Eu tinha entrado lá à procura de um cinto pro meu filho. E estava saindo com o cinto, um pacotinho de temperos, e uma vela aromática com cheiro de – pasmem – tomate e manjericão. Aliás, eu só olhei pra vela porque o pote de cerâmica vermelha com relevos de tomates combinaria com a decoração na cozinha. Enfim, eu estava ali na fila com esses itens pra pagar e nenhuma sacola pra levar, quando meu cérebro avistou a sacola pendurada ali. 

Me encantei com o estilo, com as cores, a mistura de materiais: alças em couro, estampa carimbada. A sacola era ao mesmo tempo rústica e sofisticada. 

Tem sacola no carro” _ pensei _ “O que está acontecendo que agora eu só vejo tomates? Será essa a tendência dessa estação? … Eu não preciso de outra sacola. Estou virando a tia da sacola.”

A luz do caixa 2 acendeu. Era a minha vez. Passei batida pela sacola. Brigando com a vontade de levar. Enquanto a moça passava minhas compras, eu me distraia olhando para a quantidade de itens ao redor dos caixas. Notei que as sacolas reutilizáveis estavam mais bonitas, e, consequentemente, mais caras. 

Meu cérebro de pipoca fez uma rápida relação entre as bolsas que estavam penduradas ali, incluindo aquela com tomates, e a sacola do supermercado hipado Trader’s Joe, que é um desses itens viralizados pelo mercado do luxo instagrâmico. 

$47.28 total”, me avisou a moça, “Infelizmente nossas sacolas acabaram”, complementou ela. 

“Hahahahahahahah”, gargalhou meu cérebro.
Ai moça, peraí… adiciona essa sacola de tomate aqui e já coloca as compras dentro”,  finalizei. 

De lá pra cá, a sacola de tomate tem me acompanhado em várias empreitadas. Ela é ótima pra carregar equipamento, um par de sapatos extra, um casaquinho ou uma canga, a minha bolsa. Além de cumprir com primor sua função essencial: ser uma sacola reutilizável ideal para feira e afins. 

Porém, meu impulso consumista daquele dia, acabou permeando muito dos meus pensamentos nos dias subsequentes. Enquanto transitava entre Estados, quilômetros e mais quilômetros de estrada, entra e sai de unidades de saúde, na difícil tarefa de cuidar de alguém, passei a notar tomates por todos os cantos. Confesso que até comecei a comer mais da fruta. 

Até que eu fiz uma salada de frutas e “virei a chave”, figurativamente falando. 

Estávamos na cozinha preparando um lanche de almoço. Enquanto o Barret fritava um pacote de bacon fatiado, eu aproveitei para picar metade de um mamão papaya, que estava na geladeira há alguns dias e precisava ser comido, que eu juntei com fatias de banana, pedacinhos de laranja e uma porção de granola. “Vai ser sobremesa”, exclamei. 

O bacon estava quase finalizado, no ponto de crocância que a gente gosta, quando eu tirei da geladeira um tomate heirloom lindo, maduro e bem carnudo, pra fatiar e temperar com azeite e sal. Nesse momento me lembrei de uma analogia que usa o tomate para explicar a diferença entre conhecimento e sabedoria. 

“Conhecimento é saber que o tomate é uma fruta. Sabedoria é não colocá-lo em uma salada de frutas”

Miles Kington (1941–2008)
foi um renomado jornalista, colunista
humorístico, escritor, radialista e músico britânico.

No meio do pão: o tomate, a alface, uma porção de tiras de bacon crocante, e um pouquinho de maionese formam um dos mais clássicos sanduíches da culinária norte-americana: o BLT (bi-él-ti / bacon-lettuce-tomato). Curiosamente, um sanduíche pouco reproduzido fora daqui. 

Pensei no preço do bacon, no índice de inflação de acordo com o valor do tomate. A palavra “viralizado” acendeu na minha mente. Daí lembrei da sacola do Trader’s Joe, e de criadores de conteúdo. Racionalizei despesas, valores, estilo vs. qualidade de vida, nossa sanidade e paz. 

Olhei pra minha sacola com estampa de tomate como quem conquistou um tesouro. 

Tomates devem ser a tendência dessa estação.🍅 

visual: foto mostra uma mão segurando um frasco de medicamento de estética americana. Na bula: sertraline (Zoloft)

Meu céu azul nos dias nublados

Ahhh, saúde mental. Demorou, mas aqui estou pra falar de você.
Não, profissionalmente. Claro, não sou da área e nem conheço os pormenores desse campo profissional. Por isso mesmo, me abstenho de dar declarações ou de escrever sobre. Acontece que eu tenho um monte de gente do meu ciclo — de irmã à filha adotiva — que fez da saúde mental sua vida profissional e intelectual. Então, não só ouço muito sobre o assunto, como também fico ligada às questões de cunho social que a saúde mental aborda.

A Nathi, por exemplo, é terapeuta ocupacional na rede CAPS. A Mari, entre tantas outras coisas, tem um trabalho de formação para egressos do sistema carcerário, que mistura culinária e psicologia, para trazer esse pessoal de volta ao mercado de trabalho. Diferentes gerações. E ambas compromissadas em garantir que a saúde mental faça parte da integração do indivíduo à sua própria condição de “ser” humano. O trabalho delas é super interessante, porém esse não é meu ponto de vista hoje.

Hoje, eu falo de um campo pessoal. A minha relação com a saúde mental: como esse tema faz parte da minha vida e como demorei pra me aceitar como paciente. E, pra finalizar, sobre a diferença que fez na minha qualidade de vida, o dia em que eu finalmente aceitei.

Então vamos lá. Vou tentar ser sucinta e já adianto que o final feliz vem medicado.


Isso é coisa de…

Você já assistiu a um filme chamado “Real Women Have Curves”? (“Mulheres Reais Têm Curva?)

Esse filme retrata a vida de uma jovem mexicano-americana e seus conflitos para se encaixar em duas culturas tão próximas e tão distantes. Todos os pontos do filme são válidos e são apresentados de forma gostosa de assistir. Porém, foi um deles que me tocou de forma diferente: a relação da personagem central com sua família, mais especificamente com as mulheres dela — a influência dessas mulheres na formação dela e a relação entre o que “se espera da” e o “ser a”.

Em vários momentos do filme, eu ouvi minha mãe; em outros, minha avó. Assisti a outras pessoas interpretarem cenas como se tivessem sido tiradas de uma tarde da minha adolescência, entre café e bolo de cenoura. Ainda que o cenário fosse diferente e que minhas condições socioeconômicas tenham sido mais privilegiadas que as da personagem, houve ali, na história da vida dela, muitos momentos que bateram com a minha.

O fato é (e sejamos francas): mulheres latinas são super “judgy” e competitivas. Para o bem e para o mal.

E foi nesse contexto, que nasceu minha primeira perspectiva sobre saúde mental:

  1. Depressão é coisa de gente infeliz.
  2. Ansiedade é falta de ter o que fazer.
  3. Problemas relacionados à atenção: é coisa de criança sem limites.
  4. Terapeuta é coisa de quem tem dinheiro sobrando.
  5. Remédio pra “cabeça” é coisa de louco.

E assim, fui crescendo. Me desenvolvendo. Me separando das minhas primeiras referências e entrando no mundo com cara e coragem. Vieram hormônios, viagens, faculdade, mudanças, primeiros empregos, grandes paixões e desilusões amorosas proporcionais, crises políticas, crises econômicas, crise climática, pagamento atrasado, imposto. Veio vida de imigrante, filho, mais hormônios, hormônios diferentes e… o baile continua.


É interessante analisar a diferença de nuance entre as expressões “se espera da” e “ser a”, principalmente no contexto da expectativa versus realidade feminina. Em “o que se espera da mulher”, o artigo definido “a” (precedido pela preposição “de”, que contrai com ele formando “da”) atua para generalizar, apontan
do para a mulher como categoria ou arquétipo social sobre o qual recaem as expectativas. Ou seja, ele define o alvo das normas. Por outro lado, em “o desafio de ser a mulher real”, o artigo “a” isolado cumpre uma dupla função: mantém a definição do sujeito (aquela pessoa específica) e, ao mesmo tempo, ao ser justaposto à palavra “mulher”, reforça a ideia de unicidade e de essência— a de ser A própria realidade que desafia a expectativa genérica. Assim, a presença do artigo “a” em ambas as frases é crucial: primeiro, delimita a categoria (“a” esperada) e, em seguida, define a individualidade que emerge (“a” que realmente é), transformando-se num marcador sutil, mas potente, da tensão constante entre a norma social e a identidade feminina particular.

Ajuda do Gemini para o meu prompt.

Maria, Maria …

Sabia que o nome Maria é o mais popular entre as mulheres no mundo? E eu, que, profissionalmente, assino Gabi, de Gabriela, nasci Maria, numa família de Marias, assim como tantas milhares de outras por aí.

Foi durante essas fases da vida que comecei a perceber algo fora do equilíbrio. Às vezes, me batia uma sensação de estranheza diante do mundo, uma sensação fora do lugar que eu não sabia explicar, que não era tristeza, mas que me tirava a vontade. Enquanto isso, do lado de fora, meu processo de nacionalização americana prosseguia.

Foi um período nebuloso pra Maria em mim, com emoções à flor da pele e muitos ajustes, entre eles a prescrição da sertralina. E, ainda, uma pandemia global e eu finalmente estabelecendo uma conexão com uma profissional de saúde mental — aka terapeuta.

Entre Maria e Gabi, porém, ecoavam: “remédio é coisa de gente louca”, “depressão coisa de quem não tem o que fazer”, blá-blá-blá. Na primeira oportunidade, quando tudo parecia ajustado, eu parava de tomar o “meu remédio”. Por quê? Porque sim, eu não estava triste, deprimida ou sem o que fazer. E, portanto, não preciso/ava do remédio.

Até que… assim como um dominó, minhas emoções desmoronavam: uma a uma.

Foram longas conversas com a minha terapeuta e com o meu farmacêutico favorito, e algumas mais curtas com o meu médico-geral, que foi quem me prescreveu o medicamento, até que eu finalmente quebrei com as “coisas de” que me prendiam.

Tudo de que eu precisei foi olhar para a minha própria situação sob outra perspectiva. Uma perspectiva que 1. não vilaniza o uso de drogas para uma melhor qualidade de vida; e que 2. não olha para a saúde mental como uma “coisa de”.

É possível, sim, ser feliz, mesmo vivendo com sintomas que me colocam na caixinha da depressão e da ansiedade. Assim como é possível para uma pessoa com outra doença crônica (como, por exemplo, colesterol, diabetes, hipertensão) viver plenamente, administrando sintomas com remédios e fazendo boas escolhas no seu dia a dia.

Ou seja, eu sou doente mental (acho que assim não pode mais falar)… ok. Consultei o Gemini e o correto é: pessoa com transtorno mental. Sou mesmo. Sou, sim. Más controlada.


A flibbertigibbet! A will-o’-the-wisp! A clown!

from the song Maria, on The Sound of Music.

Como resolver um problema como Maria? Como pegar uma nuvem e prendê-la? Como encontrar a palavra que signifique Maria? Uma tagarela! Um fogo-fátuo! Uma palhaça!
Tanta coisa que você gostaria de dizer a ela, Tanta coisa que ela deveria entender. Mas como fazê-la ficar E ouvir tudo o que você diz? Como manter uma onda na areia?
Ah, como resolver um problema como Maria? Como segurar um raio de luar na sua mão?


Azul como o céu que me encanta

Eu tenho um tio que me apelidou de Bicho Grilo – Bêgê – pra simplificar. A razão dele era simples: eu sou um ser da paz, que prefere soluções mais naturais às criadas laboratorialmente, e tenho um estilo meio “hippie de ser“. Eu gosto de uma graminha, porém minha maior droga se chama FAST-FOOD: amo batata frita, bacon e Big Mac. Eu dificilmente tomo remédio pra qualquer coisa, o que acaba sendo ótimo, porque quando eu preciso mesmo, eles fazem efeito rapidinho.

Reparou que batata frita, bacon e Big Mac começam com a letra B? Então, outro grande vício que eu tenho é um cara chamado Barret, que, assim como “boys”, também começa com B. Ocorre que ele é farmacêutico e meu marido. E daí, quando eu “sem querer” (querendo) parava de tomar o meu remédio (a sertralina), ele manjava.

Imagem informativa destacando os sinais de alerta da Síndrome de Descontinuação ao parar de tomar sertralina, com ênfase em sete categorias de sintomas.

Isso porque a sertralina (um inibidor seletivo da recaptação de serotonina – ISRS) modula a ação da serotonina no cérebro. A serotonina é um neurotransmissor fundamental no sistema nervoso central, atuando como um maestro químico para regular o humor, o bem-estar, o sono e o apetite. Em certas condições, observa-se uma diminuição na disponibilidade dessa substância nas sinapses. E é aí que entra a sertralina, bloqueando a reabsorção da serotonina de volta para o neurônio que a liberou. Ao impedir essa recaptação, o medicamento eleva a concentração e prolonga a ação da serotonina no espaço sináptico, ajudando a restaurar o equilíbrio químico e a aliviar os sintomas associados à deficiência desse neurotransmissor.

E aí, como você pode ver no quadro ao lado, esse desequilíbrio repentino pode causar sintomas que vão de “sensação estranha” a tremores e sudorese excessiva. No meu caso, os sintomas 3 e 7 apareciam no intervalo de semana, e o sintoma 1 geralmente aparecia quando me esquecia por dois dias consecutivos. É assim, rapidinho.

Lembra que eu citei o dominó? Pois bem, o ciclo começa com a prescrição da sertralina para regular algo que, por diversas condições, se desregulou. Nesse caso, uma química importante que atua no nosso sistema cerebral. Uma vez que a química está regulada, a gente (paciente) passa a se sentir melhor. A vida fica mais colorida, a gente tem mais disposição e foco, e aquelas emoções intrusivas deixam de pipocar no seu dia. Contente, a gente entra em conflito com a medicação, afinal, “remédio é coisa de”. E, assim, vamos esquecendo de tomar, esquecendo, esquecendo… Vem um resfriado, uma dor de cabeça. Passam uns dias. Daí, um dia, o céu amanhece nublado; vem um dia mais friozinho. Chove. E… do nada, você está chorando no meio do banho. E, na ensolarada manhã seguinte, quer dormir até anoitecer.

Quando eu digo “meu céu azul”, estou fazendo uma alusão ao tom azul do meu comprimido, que é como o de um dia ensolarado. E a maior parte do meu “desequilíbrio” ocorre entre novembro e março, quando, onde eu moro, a temperatura fica em torno de 0 graus. Dias curtos, noites longas. Não por acaso, eu deixava de tomar meu remédio justamente nos meses de verão por aqui, quando os dias terminam depois das 21 horas.

Enfim, não quero, com esse texto, glorificar nada que tenha a ver com a saúde mental, nem o papel que os medicamentos desempenham no seu tratamento. Porém, ao escolher compartilhar a MINHA experiência, quero chamar a atenção para estereótipos e para a presença subliminar desses ao longo da nossa formação e para a forma como vemos o mundo. Por conta de meus próprios pré-conceitos, eu teimei contra meu tratamento. Precisei mudar minha perspectiva pra entender melhor minha própria condição (doença). Hoje, com o envolvimento de TRÊS profissionais da saúde, entendo que meu remédio é fundamental para a minha qualidade de vida.

E assim eu sigo na paz de quem sabe que está fazendo o que pode, como pode, onde pode e com quem pode. Sem amarras, mas medicada.

Eu não prescrevo nada, mas posso indicar literatura. Então aqui vão três livros que fizeram uma diferença tremenda pra minha perspectiva sobre saúde mental; e sobre como eu falo e apoio causas relacionadas à luta antimanicomial e ao acesso ao cuidado e ao acompanhamento profissionais para todas as camadas socioeconômicas. Os três são documentos investigativos escritos por jornalistas. Histórias reais, de investigações reais, com personagens, checagem e todo o borogodó que envolve um trabalho de apuração jornalística.