Dá licença, eu sou Troféu / Excuse-me, I am a Trophy

🇧🇷 Dá licença, eu sou Troféu

É de manhã. Eu já tomei minha primeira xícara de café do dia, já li o noticiário do Instagram (a.k.a.: fui ao banheiro), seguido pela tradicional checada no UOL e Apple News. Ainda de pijama, fui fechar a cortina do quarto do meu filho e peguei o cesto de roupas sujas. 

Estou transferindo as roupas dele para um outro cesto. É o que vai descer comigo as escadas de casa, com destino à lavanderia. Ali, no meio do corredor entre os quartos e o banheiro. Na banalidade da rotina, me dei conta. Isso é a vida que eu imaginei. 

Eu sou a mulher dentro da casinha azul, de telhado triangular, gramado verde e arvoresinhas no quintal que eu desenhava no jardim de infância. Essa é a vida que eu imaginei. Essa é a vida que eu escolhi. Nessa vida eu sou feliz. Empoderada. Eu conquistei aquilo que planejei e as coisas com as quais eu sonhei.  

Não evito o sorriso que brota nos meus lábios, tomada por uma onda de orgulho e satisfação. “É isso. Era sobre isso. É por isso.”

Então, me abaixo, pego o cesto abarrotado de roupa suja, o encaixo no meu quadril, e desço para a lavanderia. 

Agora, por que eu estou contando isso? 

Porque eu preciso tirar um mito da minha cabeça. Uma construção social que me repete de forma passiva-agressiva que sou um “fracasso”. Afinal, quando chega o final do dia, eu não tenho uma carreira como essas de revista. Eu escolhi a vida doméstica à profissional. 

E se somos nossas escolhas. Eu escolhi uma vida doméstica. Isso quer dizer que eu “não faço nada”? Pior ainda, será que virei o que a internet tem rotulado de trad-wife (esposa tradicional) ou sugar-babe? 

Não que eu deva à sociedade qualquer explicação, mas se você chegou até aqui nesse texto, eu vou continuar. Meu ponto é questionar essa leitura social de dona-de-casa. Quero ressignificar outro termo internético. É um termo com o qual eu prefiro me identificar. Esse termo é o de esposa troféu (ou trophy-wife, se vc prefere em inglês). 

Todos esses são termos pejorativos. Quero dizer, na maioria das vezes dentro da bolha em que eu vivo, são usados de forma pejorativa. Ou seja, com a intenção de diminuir e ofender a pessoa a quem se referem. E se você não os conhecia, deixa eu fazer um box aqui pra te atualizar. 

Sugar-babe serve para quem é financiado/a por outra pessoa, geralmente mais velha. Seu trabalho é, essencialmente, tocar a vida como um “enfeite de braço”. Em inglês, a expressão é arm-candy. Isso acontece sem que, necessariamente, haja um relacionamento. A trad-wife, esposa tradicional, cuida das tarefas domésticas e da administração do lar. Isto é feito de forma literal e figurativa. Enquanto isso, o outro faz a grana que sustenta a família. Nessa categoria, as mais tradicionais cultivam horta, granja, e uma família com no mínimo quatro crianças. Por fim, a trophy-wife (esposa-troféu) seria basicamente o mesmo de uma sugar-babe. No entanto, ela tem vínculos matrimoniais. Em outras palavras, ela é o enfeite da prateleira. 

Pois bem, aqui estamos: em pleno ano 2025 com um jeitinho retrô de 1920s. E eu, mais uma vez, gastando energia e tempo pra falar sobre esse tema. Tudo isso aconteceu porque uma pessoa próxima e “querida” acusou meu marido de ser meu “sugar-daddy”. Ou seja, essa pessoa me colocou na categoria de uma sugar-babe. No entanto, eu, claramente, sou uma esposa-troféu. 

Fiquei ofendida. Poxa!!! Deu um trabalhão pra chegar até aqui, e ela vem me chamar de sugar-babe. 

Querida…. Eu sou prêmio. Sou a cereja do bolo, o pacotinho de batata chips. Eu não derreto com chuva. Comigo é preciso inteligência, respeito, dedicação, astúcia, e sacrifícios. Eu sou de um lugar de minerais preciosos. Fui esculpida com muito cuidado e amor, e isso tudo só agregou valor ao prêmio.

Fato é: eu sou as minhas escolhas. E, entre tantas outras coisas, eu escolho ser troféu. 

Entendi muito cedo que meu meu melhor atributo não eram curvas, mas sim minha curiosidade. Minha gana em descobrir o que vem depois, como eu chego lá, quem vai. Sou inteligente, independente, sou bilíngue, sou latina, sou a filha dos meus pais. Eu gosto muito de coisas, mas minha bagagem é leve. Eu fico muito bem em casa, bonita na prateleira e na mesa da cozinha. Também me destaco em cima da pia, no tanque, no sofá da sala de estar, na cama, e na “casinha de sapê.” Só não se engane assumindo que é só ali que fico. Eu sou troféu errante, desses que são peça de exibição. 

Ressignificar esses termos é a minha forma de simplificar quem eu sou. Faço isso para aqueles que não conseguem ver além de rótulos sociais. Escrever sobre isso me ajuda racionalizar e olhar o que está bem debaixo do meu nariz: o meu sucesso. 

Que mais eu quero? 

Eu quero o silêncio das línguas cansadas,

Eu quero a esperança de óculos

E meu filho de cuca legal

Eu quero plantar e colher com a mão

A pimenta e o sal

(Casa no Campo, Tavito e Zé Rodrix) 

🇺🇸 Excuse-me, I am a Trophy

It’s morning. I’ve already had my first cup of coffee of the day, already read the news on Instagram (a.k.a.: I went to the bathroom), followed by the traditional check of UOL.com and Apple News. Still in my pajamas, I went to close the curtain in my son’s room. Then, I picked up the dirty laundry basket.

I’m transferring his clothes to a different basket. The one going down the stairs with me to the laundry room. There, in the middle of the hallway between the bedrooms and the bathroom, I realized something. In the banality of routine, this is the life I imagined.

I am the woman inside the little blue house, with a triangular roof, green lawn, and trees all around. The same house I drew in kindergarten. This is the life I imagined. Here is where my choices have brought me so far. In this life, I am happy. Empowered. I have achieved what I planned and the things I dreamed of.

I don’t hold back the smile that blossoms on my lips, overcome by a wave of pride and satisfaction.

“This is it. This was what it was about. This is why.”

Next, I bend down and pick up the overflowing basket of dirty laundry. I fit it onto my hip. And, finally, go down to the laundry room.

Now, why am I telling you this?

Because I need to get this constant thought out of my head. A social construct that repeatedly tells me (in a passive-aggressive way) that I am a “failure.” All because, at the end of the day, I don’t have a “so-called” career. I chose a domestic life over a professional one.

And if we are our choices, and I chose a domestic life, it means I don’t have a professional one. It means that I “do nothing.” Worse, I’ve become what the internet has labeled a “trad-wife” or a “sugar babe.”

Not that I owe society any explanation, but if you’ve made it this far in this text, I’ll continue.

My point is to question this social interpretation of a “housewife.” I also want to redefine another internet term with which I prefer to identify: the trophy wife.

This term, like the other two, is pejorative. I mean, most of the time within the bubble I live in, they are used pejoratively. That is, with the intention of diminishing and offending the person to whom they refer. And if you didn’t know them, let me create a little box here to bring you up to speed.

“Sugar babe” is used for someone who is financed by another person, usually older. Their job is, essentially, to go through life as “arm candy.” There isn’t necessarily a relationship between them. The “trad-wife,” or traditional wife, handles the domestic chores. She manages the home, cares for the kids, bakes, churns, and cleans. Meanwhile, the other spouse makes the money that supports the family. Finally, the “trophy wife” is basically the same as a sugar babe with matrimonial ties. She serves as an ornament on the shelf.

Well, and here we are: in the middle of the year 2025 with a retro 1920th vibe. And I, once again, am spending energy and time talking about this topic. This situation arose after a close and “dear” person accused my husband of being my “sugar daddy.” This accusation put me in the “sugar babe” bracket, which bothered me, since I am clearly a trophy wife.

I was offended.

Damn it! It took a lot of work to get here, and she comes and calls me a sugar babe.

Darling… I am a prize. I am the cherry on top, the little bag of potato chips. I don’t melt in the rain. With me, you need intelligence, respect, dedication, cunning, and sacrifices. I come from a place of precious minerals. I was sculpted with great care and love, and all of this only added value to the prize.

The fact is: I am my choices. And, among many other things, I choose to be a trophy.

I understood very early on that my best attribute was not my curves, but my curiosity. My drive to discover what comes next, how I get there, and who is going. I am intelligent, independent, bilingual, a Latina, and the daughter of my parents. I like many things, but my baggage is light. I do very well at home. And, just like a prize, I look beautiful on the shelf and on the kitchen table. You can find me on top of the counter and in the laundry sink. I’m also on the living room sofa, in bed, and in the little shack.

Just don’t be mistaken in assuming those are my places. I am a wandering trophy, the kind that is an exhibition piece.

Redefining these terms is my way of simplifying who I am for those who can’t see beyond social labels. Writing about it helps me rationalize and look at what is right under my nose: my success.

What more do I want?

“I want the silence of tired tongues

I want the hope of glasses

And my son with a cool head

I want to plant and harvest with my own hand

The pepper and the salt”

(Casa no Campo, by Tavito and Zé Rodrix)


Das coisas que eu não publiquei (parte 1)

“Confia no processo” é o que dizem por ai. Não discordo. Sou do tipo que curte a viagem, para além de chegar no destino. Gosto de parar pra tomar um café, dar uma esticada, ir até o banheiro. Tem viagem que é longa e acabo por fazer amizades na espera de um vôo, ou com a pessoa na poltrona ao lado. Porém, não é todo destino que é conhecido. Tem viagem que é difícil, cheia de ansiedade e expectativas com a chegada. E tem caminho que é esburacado, em pista simples de mão única, em estrada sem acostamento. A analogia entre a viagem e o processo até funciona, quando olhada de forma simplista, do ponto A pro ponto B. Só que será mesmo que dá pra comparar o destino de uma viagem ao lugar onde queremos chegar na vida?

Talvez essa resposta seja tão individual como cada uma de nossas escolhas durante o trajeto.

“No teu canto canta, antiga cantiga”

Marisa Monte, Barulinho Bom

É sexta-feira e eu tirei o dia pra mim. “Vou meditar no meu tempo, tirar minhas cartas, fazer minhas anotações.”

O famigerado “confia no processo” perambulando pelos meus pensamentos. Eu tinha acabado de escrever sobre o que me dá tesão e estava bem confiante em voltar a produzir meu conteúdo. Confiante a ponto de lembrar do processo de que se eu quero chegar a algum lugar, eu preciso tirar da cabeça e por no papel tal conteúdo.

Põe no papel.

Faz um roteiro.

Grava.

Edita.

Ohmmmm…. MEDITA!

No headphones a Marisa Monte canta, no teu canto canta, antiga cantiga. La la uê, la la uê”

Eu então olho para a Bíblia que estava na minha frente, junto com os minhas cartas do Oráculo da Mãe Maria e um bloco de notas. Respiro fundo e abro uma página. Leio a passagem, um provérbio que trata sobre sabedoria, A criança junto a Deus (Pr 8,22-31). No canto esquerdo da página, tem uma nota de Teresa de Ávila:

“Deixa para a tua alma a liberdade de cantar, de dançar, de louvar e bendizer, e de amar.”

Our Lady of Great Power

Eu então coloquei minhas cartas na minha frente. Fechei meus olhos e puxei uma _ “Nossa Senhora de Grande Poder.” Essa é a carta de número 24 no meu deck*. A imagem mostra uma figura de Nossa Senhora com os cabelos longos e pretos bem ondulados, ela tem a pele marrom, usa um manto cheio de adornos e cores que vão do azul escuro ao lilas. Acomodada em seu abraço e olhando para frente está uma criança. A imagem tem sagrado coração (aquele com foguinho) na beirada inferior. Essa é a quinta vez que eu tiro essa carta desde que tenho o deck. Por conta de sua mensagem, e do impacto que ela causou desde a primeira vez, eu anoto no canto da pagina as datas de quando ela veio pra mim: Abril de 2020, Fevereiro de 2021, Dezembro de 2022, Novembro de 2024, Março de 2025.

Ela me vem como um respiro nos momentos de dúvida. Especialmente quando começo questionar meu processo, minhas habilidades, e minha fé na humanidade. Nossa Senhora de Grande Poder diz, “Devemos ter o cuidado para não deixar que nosso otimismo genuino, aquele que nos mantém abertos e ativos, torne-se fonte de falsidade. Não podemos permitir que ele nos diga que nada precisa mudar, que tudo está bem, quando a Mãe Divina nos diz que nada disso é verdade. Precisamos ser honestos com nós mesmos e nossos sofrimentos. Não devemos ter medo do otimismo. Devemos estar cientes dele, e através dele ocorrerá a cicatrização.”

Esse seu otimismo irritante é também uma qualidade, penso. “Confia no processo”.

Sabedoria, a final

Na janela do meu escritorio tenho bandeirinhas tibetanas. Foquei na bandeirinha da Sabedoria nesse dia.

SABEDORIA = conhecimento, intuição e experiência combinados para nos guiar através de ações.

“Confia no processo.” Confiar no processo é confiar na minha história, em quem eu sou, nas experiências e conhecimentos que ao longo da vida fui adquirindo e continuo a adquirir. O meu processo é meu e de mais ninguem. Por isso, vale pra cada um.

Eu estava desgostosa dos meus talentos. Desgostosa das minhas competências e habilidades. Deixei de acreditar em mim e na qualidade daquilo que posso entregar. Sensação ruim essa. Coisa que eu escrevi e apaguei. Foto que não editei ou publiquei. O processo perdeu o sentido porque eu estava sem direção. Eu sei que me perco facilmente com qualquer brilho que chame minha atenção e atice a curiosidade de jornalista. 2024 foi um ano importante pra que eu amadurece nesse sentido e passasse a entender meus processos.

“It takes a truly great leader to be a great warrior for love on this planet”, Fairchild, Alana – Mother Mary Oracle.

Leia em Das coisas que eu não publiquei, parte 2: meu balanço de 2024 e uma reflexão sobre o tão sonhado “Chegar lá.”