Visual: um desenho de um adolescente com cara amarrada está sentado no meio-fio em frente a um muro. O muro tem grafite e alguns tijolos aparentes. É um dia nublado. O jovem parece solitário, mas não abandonado. Ele usa roupas boas, e na mochila dá para ver o endereço da família e um número de telefone. No português do Brasil existe a expressão 'aborrecente', que tenta explicar essa insatisfação constante típica da adolescência.

‘Aborrecente’

Minha mãe adora essa passagem da nossa vida de um dia em que eu, no auge dos meus 16 anos, virei pra ela – com toda a maturidade dos 16 – e disse que o comportamento do meu irmão, então com 13 anos, era culpa da “aborrecência” dele. Assim mesmo, como se eu estivesse conversando de igual-pra-igual com uma amiga entre um gole e outro de cafézinho no lanche da tarde. 

Ela, que naquelas alturas estava com o pé na casa dos 40, me olhou intrigada com a expressão. E eu, confidente, segui explicando que “aborrecência” era uma breve janela do tempo entre o fim da infância e o início da adolescência em si, tipo um período de despedida, “meio que um luto”, do indivíduo pelo que era e o está virando. A metamorfose. Só que nesse caso (o da “aborrecência”) homens eram mais acometidos que mulheres. 

Ao final da explicação, minha mãe ficou por uns cinco segundos me encarando, fazendo senso de todo aquele momento. 

E, só pra contextualizar, entre a gente, eu e o meu irmão, existem três anos e sete meses de diferença, e outras duas irmãs: uma que veio logo depois de mim, e uma que veio junto com ele. 

…. 2.. 1 .. “hahahah. De onde você tirou isso, Maria Gabriela?”, _ Reparem, ela riu. Mas em seguida usou o meu nome composto. Esse era o sinal.
O meu “cue”, por assim dizer, de que dali em diante na conversa ela era só Mãe. E, nas palavras dela mesma, “mãe não tem que ser amiga”.  

Eu não lembro o que veio depois disso. Nem sei de onde foi que eu tirei essas informações (talvez tenha sido na Capricho). Pra ser mais sincera ainda, eu nem me lembraria dessa situação, não fosse a forma como a minha mãe guardou o momento na memória dela. E de como ela, ainda, usa o termo “aborrecente” todas as vezes que qualquer um de nós fala sobre a pauta. 

Hoje em dia, eu, na casa dos 40++, tenho um exemplar do espécime em casa. O meu, em 2026, tem 15 anos e, no momento, está mais pra “aborrê” que pra “adolê”. E – GZUIS – pra usar uma outra expressão que é muito a cara da minha mãe: “estou pagando meus pecados”. (só pra esclarecer, pro lado bom e pro lado ruim da preocupação inerente de ter um – ou mais – seres dessa mesma faixa etária no seu convívio)

Vamos lá: hormônios!! Ahhhh hormônios! 

Quem será que deu a idéia pra Deux colocar essas químicas no nosso organismo hein? 

Só pode ter sido algum Espírito de Porco.

(Tô rindo) 

.

RESPIRA NÃO PIRA 

Enquanto vou aprendendo com o tempo, a maturidade, a paciência, a meditação, a yoga, minhas parças, como lidar com essa fase da vida do ser que eu coloquei no mundo; dando a ele liberdades e limites, sem exagerar na mão – (o que por sinal, é muito mais fácil na teoria que na prática).  Eu fico imaginando a minha mãe, lá nos seus 40s, 50+, em uma época em que a gente não tinha essa invasão de internet, mas que ao mesmo tempo não repercutia temas importantes como perimenopausa, depressão, endometriose, e tantas outras doenças crônicas -, criadora de não um, não dois; mas quatro seres em picos hormonais distintos, enquanto ela mesma devia estar em sua própria montanha russa de emoções. 

Duas décadas, dois países e dois idiomas, separam os adolescentes da minha mãe do meu adolescente. As preocupações e desafios que ela teve lá atrás, não são os mesmos que encontro hoje. Eu quero dizer que foi mais fácil pra ela – sem Discord, sem YouTube, sem Smartphone -, mas não foi. 

Eu hoje precisei ter uma conversa séria com o meu filho. Uma conversa que, talvez (minha esperança), tenha sido um desses momentos “plot twist” na jornada de um herói. 

E sim.. eu não estou exagerando. A conversa foi intensa assim mesmo. 

Eu ensaiei essa conversa. Ensaie no espelho. Sozinha dentro do carro.
E nesses ensaios eu começava assim: “Filho, I love you. Mas você precisa entender de uma vez por todas que eu sou sua Mãe, e não sua amiga”.  

Nesse tempo todo, eu não te disse que nunca gostei quando a minha mãe nos dizia isso. Acredito que por isso, inclusive, tenho uma barreira de conversar certos assuntos com ela. Porque pra mim, tem coisa que é conversa de amiga, e ela não se enquadrou nessa categoria por muito tempo. Mas que fique claro, que eu não vejo isso como um assunto na minha vida. Trouxe aqui porque entrou nessa reflexão (a terapia vai bem, obrigada!)

Enfim, não comecei a conversa dizendo que não era amiga e nem nada nessa direção. Preferi falar sobre a metamorfose de uma borboleta, das dores da transformação, e da confiança que temos nele. Daí o lembrei que liberdades requerem responsabilidades; que a gente está aqui pra, literalmente, o que der e vier; mas a vida dele, quem vive, é ele. 

Número 38

Não é só um numero. Não é um ano a mais. É um tempo. Um tempo de conhecimentos e de experiências acumuladas. O meu tempo.

Tive época de desenvolver meu sistema motor, cognitivo, afetivo. Aprendi cheirar, saborear, ouvir, sentir, ver, me mexer, pegar, rolar, sentar, andar. Aprendi chorar e sorrir. Aprendi sobre feições. Sons. Aprendi falar.

E depois ainda vieram: segurar, colorir, numerar, correr, subir, pedalar, me ralar. Só então aprendi escrever.

A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X  Z (naquele tempo não tinha KWY). Aprendi ler.

Então foi a vez de começar imaginar, sonhar, dançar, e planejar. Fortificar laços. Entender a amizade. A dor de me frustrar. Aprendi Beijar. Amar.

Teve essa época maluca que veio depois: colegial, EUA, faculdade. Comunicação Social. Pra ficar na memória, meu coração emocional. Na parte boa da palavra Saudade, que na minha interpretação está diretamente ligada ao futuro.

E claro, depois disso tudo eu ainda aprendi pagar imposto, fazer contas, bater cartão. Comprei um carro (que levou três anos pra pagar). Militei. E me decepcionei.

38 1Namorei. Larguei. Namorei. Fui Largada. Namorei. Não deu certo.

Fiz mudança… várias vezes. Um saco (sério, detesto empacotar… me distraio demais e demora muito)

Daí eu cansei. Queria voltar lá no sonhar e planejar, mas o meu tempo pulou uma parada estratégica, aquela em que eu aprenderia realizar.  Aprendi rezar e meditar.

Meu tempo então me deu um tempo.
Pra ser mulher.

O meu tempo agora é 38. Ele vem com dois amores e uma cachorra, algumas tatuagens, dois países, um violão preto, um capacete de flor, algum equilíbrio (desde que não seja a terceira semana do ciclo), sangue pra cabeça e uma vontade louca de criar.

 

E vem coisa bacana por aqui. A todos vocês, que estão comigo nesta jornada: Obrigada!

Até 😉