Maternidade e Geração Z: Por Que Olhamos Tão Longe Para o Futuro?

Uma das questões com as quais eu lido constantemente na vida é: como eu exerço a maternidade? Penso, medito e rezo sobre a relação que eu construo com meu filho, sobre as referências e exemplos que ele tem, e sobre a formação da identidade dele enquanto um homem branco e privilegiado; mas que, ao longo da vida, tem sido exposto à realidade das diferenças raciais e sociais.

E, especialmente, sobre como decisões e vivências que são do campo individual afetam o seu lugar no campo coletivo. Com isso, percebo que olhamos demais para um futuro que está longe e esquecemos de cuidar do futuro imediato, que um dia foi um futuro distante. A gente fica tão preocupado com o amanhã, com feriados, e celebrações com data marcada, que deixamos de festejar pequenas conquistas.

E de tanto olhar para frente, tropeçamos nos sinais do caminho.


Recentemente eu convidei o pessoal nos meus canais sociais – Facebook & Instagram – a sugerir pautas aqui para o estrangera. E uma das sugestões foi: “Maturidade / Geração Z é o futuro?”

Em uma caixinha de sugestões de rede social _ estilo Meta _ a sugestão enviada lê: Maturidade / Geração Z é o futuro?

Enquanto eu pensava sobre a tal de Geração Z, a maturidade e o futuro, me veio, novamente, a noite de Halloween. E o que aconteceu depois da pizza e da maçã do amor.

O fato é: há mais de uma década eu escrevo sobre ser estrangeira e as várias caixinhas sociológicas com as quais me identifico (ou não). E é exatamente por me identificar com tantas dessas caixinhas que eu não consigo entrar em definitivo em qualquer uma delas. E mesmo assim, cá estou: mulher, latina, estrangeira, caipira do interior de São Paulo e do interior de Nova Yorque.

O que me traz aos blocos geracionais abaixo.

Se você sabe sobre as gerações, e onde começa e termina a demarcação geracional, pode pular para o parágrafo depois da tabela. Do contrário, eu recomendo dar uma olhada na tabela e aviso que usei o Gemini (IA do Google) pra fazer.

Nome da GeraçãoPeríodo (Aproximado) Características
Baby Boomers1946 – 1964Estabilidade e Trabalho. Valorizam a lealdade corporativa, o trabalho duro e a hierarquia. Cresceram no otimismo do pós-guerra e viram a ascensão da TV.
Geração X1965 – 1980Independentes e Céticos. Conhecidos como a geração “sanduíche” (cuidam de pais e filhos). Viram a transição do analógico para o digital e valorizam o equilíbrio vida-trabalho.
Millennials (Gen Y)1981 – 1996Propósito e Experiência. Primeira geração a crescer com a internet e a globalização. Preferem flexibilidade, valorizam experiências (viagens) sobre posses (casas/carros).
Geração Z1997 – 2012Nativos Digitais e Pragmáticos. Nunca viram o mundo sem internet. São autodidatas, preocupados com diversidade, justiça social e saúde mental. Preferem comunicação por imagem/vídeo.
Geração Alpha2013 – 2024Hiperconectados. Filhos dos Millennials. Interagem com telas (tablets/smartphones) desde o berço. A tecnologia não é ferramenta, é extensão da vida. Aprendizado visual e gamificado.
Geração Beta2025 – 2039Nativos da IA. A geração que começa a nascer agora. Serão os primeiros a crescer em um mundo onde a Inteligência Artificial é onipresente e a distinção entre online e offline é quase inexistente.

Tá, agora, como foi que eu amarrei a maçã do amor às minhas questões pessoais e ainda dei um laço com a Geração Z e o futuro?

Vamos lá. Primeiro, eu quero lembrar que o que eu escrevo aqui, no estrangera.com, vem da minha vivência e minha perspectiva de mundo. E, segundo, quero compartilhar com você esse verso, no refrão de Creep, do Radiohead:

Em português: “Mas eu sou uma aberração / Sou um esquisito / Que diabos eu estou fazendo aqui? / O meu lugar não é aqui.”

Adoro essa música. Adoro na versão da Macy Gray. Adoro como ela aparece em trilhas sonoras. Me identifico. Sou uma esquisita de carteirinha. E, nessa coisa geracional, me incomoda o fato de não levarem em consideração a localização geográfica, e nem o pano de fundo na vida dos indivíduos em cada um desses grupos. É como se a Geração Z do Brasil, dos EUA, da Nigéria e do Japão fossem as mesmas. Ou seja, basicamente, bastou a pessoa ter nascido dentro de um certo período de tempo que ela é aquilo e ponto.

Daí, eu tinha na minha sala quatro GenZiers, com histórias de vida que não poderiam ser mais diferentes uma das outras. Do quarto eu podia ouvir a voz de um deles competindo com o Thom Yorke no refrão de Creep. E daí, um coro: “But I’m a creep, I’m a weirdoooooooooo…”

Sorri. Essa foi a segunda conquista silenciosa da noite (veio depois da maçã do amor): meu adolescente, e os amigos dele, apreciam os clássicos da música. Ouvir o que eles estavam ouvindo aquietou uma das minhas angústias: Uff… gosto musical.

Resolvi que era hora de dar uma espiada na movimentação da sala. Será que eles queriam uma água?

Quando apareci por lá, estavam os quatro rindo e me pediram para usar o violão.

“Ok, mas daí posso ficar aqui um pouco com vocês?” Não resisti. Não só estava adorando a trilha sonora que eles escolhiam, mas agora teria a chance de ver uma performance! E a moçadinha super curtiu a ideia. Me receberam e já vieram cheios de perguntas sobre minhas quinquilharias espalhadas pela casa: o violão, os CD’s, o divisor/tapume/vision board, e meus livros.

“Qual o seu livro favorito?”

Diante desta pergunta, eu travei. Eu, que estava ali me sentindo a tia mais descolada do planeta, fui acuada por uma garota vestida de Pantera dentro da minha toca.

Sem graça por não saber o que responder, eu olhei em volta. Em todos os cantos da sala: livros, revistas, bilhetes colados na parede, letras em todas as paredes. Passei a mão na poesia reunida da Orides Fontella (que é minha conterrânea). Mostrei para ela uma das obras da Fernanda Young. Lembrei que gosto do Edgar Allan Poe. Falei da Clarice Lispector, da obra do Allan Poe traduzida e adaptada pela Clarice. Perguntei se ela conhecia Pollyanna? (Mas eu não lembro quem escreveu). Eu quis parecer cool. Extra cool.xtra cool.

Mas a verdade é que aquela pergunta meio que me desestabilizou. Dentre todos os livros que eu já li, qual o meu preferido? Tenho algum? Tenho mais de um? Ahh… e eu gosto de ler revista, jornal. Vale isso também? O que aconteceu? Que conversa é essa Geração Z?

Tóinnn…. a corda do violão estourou.

Uma distração. Uff… Saí de fininho e logo deu a hora de levá-los embora. O assunto do livro morreu ali. As visitas do meu filho foram embora. A casa voltou a ficar mais quieta.

Qual é o meu livro favorito? Não demorei para lembrar. Meu livro favorito é uma coletânea de livros. Devo admitir que eu tenho vários livros favoritos que, diferente da maçã do amor, não ocupam um pódio. Meus livros favoritos são favoritos porque me ajudaram a entender algo da vida real, via ficção. Meus livros favoritos contêm personagens que me despertaram empatia, me ensinaram alguma lição e, portanto, são parte do ser humano que eu sou. Mas tá, aqui vai: tem a Bíblia (uma coletânea de livros); têm a coleção “As Brumas de Avalon“, da Marion Zimmer Bradley; e tem “O Cordeiro“, de Christopher Moore. Nada de grandes nomes ou clássicos literários. São esses que ocupam minha lista de ficção/realidade favoritas.


Se a Geração Z é o futuro?

O futuro é agora. E agora, já é passado.

Porém, para responder essa pergunta de forma generalizada: Eu penso que a Geração Z é o futuro das gerações que a precederam. Tenho o privilégio de viver a diversidade e de acreditar na educação, e o privilégio de testemunhar o desenvolvimento de um ser humano que nasceu e vem crescendo nesse ambiente. Vejo, em primeira mão, o resultado do ambiente no desenvolvimento dele: os bons exemplos, os maus exemplos. A quantidade de tempo em frente à tela. As liberdades que ele tem. A entrada de religião. O amor. Muito amor.

Sendo assim, se a Geração Z é o futuro? Acredito que a resposta depende do olhar de quem responde. Eu acredito que sim, porque eu acredito na minha contribuição para esse “futuro.” E foi uma maçã do amor, o Radiohead, e uma conversa literária com uma turminha caracterizada por se comunicar via vídeo, que me ajudou a, figurativamente, “ver” isso.

📢 Para Continuar a Conversa:

E você? Qual é o seu livro favorito que te ensinou algo sobre a vida? Você concorda que o futuro é um presente em construção? Deixe seu comentário e vamos trocar ideias!

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Atenção


📰 Life Update: Meu Texto na Revista Yokel

Essa daí sou eu no lançamento da Revista Yokel, em Lowville, NY. Continuar explorando as minhas caixinhas e desafiar estereótipos (tema central deste blog) me levou a escrever um texto na primeira edição da Yokel.
Para quem não sabe, Yokel em português se traduz “Jeca”. Meu texto na revista vem das minhas memórias e percepção em torno do personagem Jeca Tatu, conectando o Brasil e a vida de “caipira” (que me define!) à minha experiência estrangeira.

Para ler a matéria e conhecer a revista, clique no botão abaixo:

visual: foto mostra uma mão segurando um frasco de medicamento de estética americana. Na bula: sertraline (Zoloft)

Meu céu azul nos dias nublados

Ahhh, saúde mental. Demorou, mas aqui estou pra falar de você.
Não, profissionalmente. Claro, não sou da área e nem conheço os pormenores desse campo profissional. Por isso mesmo, me abstenho de dar declarações ou de escrever sobre. Acontece que eu tenho um monte de gente do meu ciclo — de irmã à filha adotiva — que fez da saúde mental sua vida profissional e intelectual. Então, não só ouço muito sobre o assunto, como também fico ligada às questões de cunho social que a saúde mental aborda.

A Nathi, por exemplo, é terapeuta ocupacional na rede CAPS. A Mari, entre tantas outras coisas, tem um trabalho de formação para egressos do sistema carcerário, que mistura culinária e psicologia, para trazer esse pessoal de volta ao mercado de trabalho. Diferentes gerações. E ambas compromissadas em garantir que a saúde mental faça parte da integração do indivíduo à sua própria condição de “ser” humano. O trabalho delas é super interessante, porém esse não é meu ponto de vista hoje.

Hoje, eu falo de um campo pessoal. A minha relação com a saúde mental: como esse tema faz parte da minha vida e como demorei pra me aceitar como paciente. E, pra finalizar, sobre a diferença que fez na minha qualidade de vida, o dia em que eu finalmente aceitei.

Então vamos lá. Vou tentar ser sucinta e já adianto que o final feliz vem medicado.


Isso é coisa de…

Você já assistiu a um filme chamado “Real Women Have Curves”? (“Mulheres Reais Têm Curva?)

Esse filme retrata a vida de uma jovem mexicano-americana e seus conflitos para se encaixar em duas culturas tão próximas e tão distantes. Todos os pontos do filme são válidos e são apresentados de forma gostosa de assistir. Porém, foi um deles que me tocou de forma diferente: a relação da personagem central com sua família, mais especificamente com as mulheres dela — a influência dessas mulheres na formação dela e a relação entre o que “se espera da” e o “ser a”.

Em vários momentos do filme, eu ouvi minha mãe; em outros, minha avó. Assisti a outras pessoas interpretarem cenas como se tivessem sido tiradas de uma tarde da minha adolescência, entre café e bolo de cenoura. Ainda que o cenário fosse diferente e que minhas condições socioeconômicas tenham sido mais privilegiadas que as da personagem, houve ali, na história da vida dela, muitos momentos que bateram com a minha.

O fato é (e sejamos francas): mulheres latinas são super “judgy” e competitivas. Para o bem e para o mal.

E foi nesse contexto, que nasceu minha primeira perspectiva sobre saúde mental:

  1. Depressão é coisa de gente infeliz.
  2. Ansiedade é falta de ter o que fazer.
  3. Problemas relacionados à atenção: é coisa de criança sem limites.
  4. Terapeuta é coisa de quem tem dinheiro sobrando.
  5. Remédio pra “cabeça” é coisa de louco.

E assim, fui crescendo. Me desenvolvendo. Me separando das minhas primeiras referências e entrando no mundo com cara e coragem. Vieram hormônios, viagens, faculdade, mudanças, primeiros empregos, grandes paixões e desilusões amorosas proporcionais, crises políticas, crises econômicas, crise climática, pagamento atrasado, imposto. Veio vida de imigrante, filho, mais hormônios, hormônios diferentes e… o baile continua.


É interessante analisar a diferença de nuance entre as expressões “se espera da” e “ser a”, principalmente no contexto da expectativa versus realidade feminina. Em “o que se espera da mulher”, o artigo definido “a” (precedido pela preposição “de”, que contrai com ele formando “da”) atua para generalizar, apontan
do para a mulher como categoria ou arquétipo social sobre o qual recaem as expectativas. Ou seja, ele define o alvo das normas. Por outro lado, em “o desafio de ser a mulher real”, o artigo “a” isolado cumpre uma dupla função: mantém a definição do sujeito (aquela pessoa específica) e, ao mesmo tempo, ao ser justaposto à palavra “mulher”, reforça a ideia de unicidade e de essência— a de ser A própria realidade que desafia a expectativa genérica. Assim, a presença do artigo “a” em ambas as frases é crucial: primeiro, delimita a categoria (“a” esperada) e, em seguida, define a individualidade que emerge (“a” que realmente é), transformando-se num marcador sutil, mas potente, da tensão constante entre a norma social e a identidade feminina particular.

Ajuda do Gemini para o meu prompt.

Maria, Maria …

Sabia que o nome Maria é o mais popular entre as mulheres no mundo? E eu, que, profissionalmente, assino Gabi, de Gabriela, nasci Maria, numa família de Marias, assim como tantas milhares de outras por aí.

Foi durante essas fases da vida que comecei a perceber algo fora do equilíbrio. Às vezes, me batia uma sensação de estranheza diante do mundo, uma sensação fora do lugar que eu não sabia explicar, que não era tristeza, mas que me tirava a vontade. Enquanto isso, do lado de fora, meu processo de nacionalização americana prosseguia.

Foi um período nebuloso pra Maria em mim, com emoções à flor da pele e muitos ajustes, entre eles a prescrição da sertralina. E, ainda, uma pandemia global e eu finalmente estabelecendo uma conexão com uma profissional de saúde mental — aka terapeuta.

Entre Maria e Gabi, porém, ecoavam: “remédio é coisa de gente louca”, “depressão coisa de quem não tem o que fazer”, blá-blá-blá. Na primeira oportunidade, quando tudo parecia ajustado, eu parava de tomar o “meu remédio”. Por quê? Porque sim, eu não estava triste, deprimida ou sem o que fazer. E, portanto, não preciso/ava do remédio.

Até que… assim como um dominó, minhas emoções desmoronavam: uma a uma.

Foram longas conversas com a minha terapeuta e com o meu farmacêutico favorito, e algumas mais curtas com o meu médico-geral, que foi quem me prescreveu o medicamento, até que eu finalmente quebrei com as “coisas de” que me prendiam.

Tudo de que eu precisei foi olhar para a minha própria situação sob outra perspectiva. Uma perspectiva que 1. não vilaniza o uso de drogas para uma melhor qualidade de vida; e que 2. não olha para a saúde mental como uma “coisa de”.

É possível, sim, ser feliz, mesmo vivendo com sintomas que me colocam na caixinha da depressão e da ansiedade. Assim como é possível para uma pessoa com outra doença crônica (como, por exemplo, colesterol, diabetes, hipertensão) viver plenamente, administrando sintomas com remédios e fazendo boas escolhas no seu dia a dia.

Ou seja, eu sou doente mental (acho que assim não pode mais falar)… ok. Consultei o Gemini e o correto é: pessoa com transtorno mental. Sou mesmo. Sou, sim. Más controlada.


A flibbertigibbet! A will-o’-the-wisp! A clown!

from the song Maria, on The Sound of Music.

Como resolver um problema como Maria? Como pegar uma nuvem e prendê-la? Como encontrar a palavra que signifique Maria? Uma tagarela! Um fogo-fátuo! Uma palhaça!
Tanta coisa que você gostaria de dizer a ela, Tanta coisa que ela deveria entender. Mas como fazê-la ficar E ouvir tudo o que você diz? Como manter uma onda na areia?
Ah, como resolver um problema como Maria? Como segurar um raio de luar na sua mão?


Azul como o céu que me encanta

Eu tenho um tio que me apelidou de Bicho Grilo – Bêgê – pra simplificar. A razão dele era simples: eu sou um ser da paz, que prefere soluções mais naturais às criadas laboratorialmente, e tenho um estilo meio “hippie de ser“. Eu gosto de uma graminha, porém minha maior droga se chama FAST-FOOD: amo batata frita, bacon e Big Mac. Eu dificilmente tomo remédio pra qualquer coisa, o que acaba sendo ótimo, porque quando eu preciso mesmo, eles fazem efeito rapidinho.

Reparou que batata frita, bacon e Big Mac começam com a letra B? Então, outro grande vício que eu tenho é um cara chamado Barret, que, assim como “boys”, também começa com B. Ocorre que ele é farmacêutico e meu marido. E daí, quando eu “sem querer” (querendo) parava de tomar o meu remédio (a sertralina), ele manjava.

Imagem informativa destacando os sinais de alerta da Síndrome de Descontinuação ao parar de tomar sertralina, com ênfase em sete categorias de sintomas.

Isso porque a sertralina (um inibidor seletivo da recaptação de serotonina – ISRS) modula a ação da serotonina no cérebro. A serotonina é um neurotransmissor fundamental no sistema nervoso central, atuando como um maestro químico para regular o humor, o bem-estar, o sono e o apetite. Em certas condições, observa-se uma diminuição na disponibilidade dessa substância nas sinapses. E é aí que entra a sertralina, bloqueando a reabsorção da serotonina de volta para o neurônio que a liberou. Ao impedir essa recaptação, o medicamento eleva a concentração e prolonga a ação da serotonina no espaço sináptico, ajudando a restaurar o equilíbrio químico e a aliviar os sintomas associados à deficiência desse neurotransmissor.

E aí, como você pode ver no quadro ao lado, esse desequilíbrio repentino pode causar sintomas que vão de “sensação estranha” a tremores e sudorese excessiva. No meu caso, os sintomas 3 e 7 apareciam no intervalo de semana, e o sintoma 1 geralmente aparecia quando me esquecia por dois dias consecutivos. É assim, rapidinho.

Lembra que eu citei o dominó? Pois bem, o ciclo começa com a prescrição da sertralina para regular algo que, por diversas condições, se desregulou. Nesse caso, uma química importante que atua no nosso sistema cerebral. Uma vez que a química está regulada, a gente (paciente) passa a se sentir melhor. A vida fica mais colorida, a gente tem mais disposição e foco, e aquelas emoções intrusivas deixam de pipocar no seu dia. Contente, a gente entra em conflito com a medicação, afinal, “remédio é coisa de”. E, assim, vamos esquecendo de tomar, esquecendo, esquecendo… Vem um resfriado, uma dor de cabeça. Passam uns dias. Daí, um dia, o céu amanhece nublado; vem um dia mais friozinho. Chove. E… do nada, você está chorando no meio do banho. E, na ensolarada manhã seguinte, quer dormir até anoitecer.

Quando eu digo “meu céu azul”, estou fazendo uma alusão ao tom azul do meu comprimido, que é como o de um dia ensolarado. E a maior parte do meu “desequilíbrio” ocorre entre novembro e março, quando, onde eu moro, a temperatura fica em torno de 0 graus. Dias curtos, noites longas. Não por acaso, eu deixava de tomar meu remédio justamente nos meses de verão por aqui, quando os dias terminam depois das 21 horas.

Enfim, não quero, com esse texto, glorificar nada que tenha a ver com a saúde mental, nem o papel que os medicamentos desempenham no seu tratamento. Porém, ao escolher compartilhar a MINHA experiência, quero chamar a atenção para estereótipos e para a presença subliminar desses ao longo da nossa formação e para a forma como vemos o mundo. Por conta de meus próprios pré-conceitos, eu teimei contra meu tratamento. Precisei mudar minha perspectiva pra entender melhor minha própria condição (doença). Hoje, com o envolvimento de TRÊS profissionais da saúde, entendo que meu remédio é fundamental para a minha qualidade de vida.

E assim eu sigo na paz de quem sabe que está fazendo o que pode, como pode, onde pode e com quem pode. Sem amarras, mas medicada.

Eu não prescrevo nada, mas posso indicar literatura. Então aqui vão três livros que fizeram uma diferença tremenda pra minha perspectiva sobre saúde mental; e sobre como eu falo e apoio causas relacionadas à luta antimanicomial e ao acesso ao cuidado e ao acompanhamento profissionais para todas as camadas socioeconômicas. Os três são documentos investigativos escritos por jornalistas. Histórias reais, de investigações reais, com personagens, checagem e todo o borogodó que envolve um trabalho de apuração jornalística.

A Jornada de Voltar a Escrever

Por que eu parei de escrever? Tenho me feito essa mesma pergunta há quase quatro anos. No princípio pensava que era algum tipo de ‘bloqueio criativo’, mas também me recusava a entrar nessa caixa. Daí me acomodei com a preguiça de escrever. Me soava uma explicação honesta, fora da caixa. Porém perigosa, pois me colocava num lugar acomodado. 

Foram meses (e meses). Aí voltei para o ambiente do trabalho tradicional – escritório, ponto, carga horária, hora extra, chefe, relatório, festa da firma, e retreats -, tudo isso em inglês, que é o idioma de onde eu moro. E, assim, deixei de escrever de vez. Com um motivo legítimo e inquestionável. 

No meu trabalho eu escrevia. Não sobre o que eu gosto, nem mesmo sobre assuntos que domino. Minha escrita era engessada, desconfiada, e – o pior – dentro da caixinha chamada ‘compliance’.  

Nesse entretempo, o planeta terra continuou girando em torno do sol. Os meses viraram anos. Tivemos pandemia, blizzards, viagens, perdas e ganhos. Meu cabelo clareou. 

Aquela eu que tinha deixado de escrever, não era mais a mesma. E a nova eu, mesmo diferente, ainda gostava de escrever. 

Voltei a me perguntar: por que eu parei de escrever?

Levei o assunto pra terapia. Até que… todas as letras que contive presas entre meus pensamentos e meus dedos não couberam mais nesse curto espaço e explodiram. 

Guébie, a estranha

Não é fácil se adaptar no estrangeiro, especialmente quando a gente AMA a nossa terra natal. Já tenho mais de 15 anos aqui. Já passei por todas as provas sociais que me permitem ser ‘local’ e, mesmo assim, sou tão estrangeira nessa terra, quanto essa terra é para mim. 

Por que eu deixei de escrever? 

Porque sim. Porque minha vida foi entrando por outros caminhos, e eu me permite segui-lós pra ver onde iria. Eu deixei de escrever para explorar outros formatos, outros idiomas, e uma outra Gabi (que em inglês soa Guébie e escrevem Gabby). 

Deixei de escrever em português, para aprender a escrever em inglês. Mas acabei aprendendo que não escreverei certo nem em uma e nem em outra se eu não escrever.