Maternidade e Geração Z: Por Que Olhamos Tão Longe Para o Futuro?

Uma das questões com as quais eu lido constantemente na vida é: como eu exerço a maternidade? Penso, medito e rezo sobre a relação que eu construo com meu filho, sobre as referências e exemplos que ele tem, e sobre a formação da identidade dele enquanto um homem branco e privilegiado; mas que, ao longo da vida, tem sido exposto à realidade das diferenças raciais e sociais.

E, especialmente, sobre como decisões e vivências que são do campo individual afetam o seu lugar no campo coletivo. Com isso, percebo que olhamos demais para um futuro que está longe e esquecemos de cuidar do futuro imediato, que um dia foi um futuro distante. A gente fica tão preocupado com o amanhã, com feriados, e celebrações com data marcada, que deixamos de festejar pequenas conquistas.

E de tanto olhar para frente, tropeçamos nos sinais do caminho.


Recentemente eu convidei o pessoal nos meus canais sociais – Facebook & Instagram – a sugerir pautas aqui para o estrangera. E uma das sugestões foi: “Maturidade / Geração Z é o futuro?”

Em uma caixinha de sugestões de rede social _ estilo Meta _ a sugestão enviada lê: Maturidade / Geração Z é o futuro?

Enquanto eu pensava sobre a tal de Geração Z, a maturidade e o futuro, me veio, novamente, a noite de Halloween. E o que aconteceu depois da pizza e da maçã do amor.

O fato é: há mais de uma década eu escrevo sobre ser estrangeira e as várias caixinhas sociológicas com as quais me identifico (ou não). E é exatamente por me identificar com tantas dessas caixinhas que eu não consigo entrar em definitivo em qualquer uma delas. E mesmo assim, cá estou: mulher, latina, estrangeira, caipira do interior de São Paulo e do interior de Nova Yorque.

O que me traz aos blocos geracionais abaixo.

Se você sabe sobre as gerações, e onde começa e termina a demarcação geracional, pode pular para o parágrafo depois da tabela. Do contrário, eu recomendo dar uma olhada na tabela e aviso que usei o Gemini (IA do Google) pra fazer.

Nome da GeraçãoPeríodo (Aproximado) Características
Baby Boomers1946 – 1964Estabilidade e Trabalho. Valorizam a lealdade corporativa, o trabalho duro e a hierarquia. Cresceram no otimismo do pós-guerra e viram a ascensão da TV.
Geração X1965 – 1980Independentes e Céticos. Conhecidos como a geração “sanduíche” (cuidam de pais e filhos). Viram a transição do analógico para o digital e valorizam o equilíbrio vida-trabalho.
Millennials (Gen Y)1981 – 1996Propósito e Experiência. Primeira geração a crescer com a internet e a globalização. Preferem flexibilidade, valorizam experiências (viagens) sobre posses (casas/carros).
Geração Z1997 – 2012Nativos Digitais e Pragmáticos. Nunca viram o mundo sem internet. São autodidatas, preocupados com diversidade, justiça social e saúde mental. Preferem comunicação por imagem/vídeo.
Geração Alpha2013 – 2024Hiperconectados. Filhos dos Millennials. Interagem com telas (tablets/smartphones) desde o berço. A tecnologia não é ferramenta, é extensão da vida. Aprendizado visual e gamificado.
Geração Beta2025 – 2039Nativos da IA. A geração que começa a nascer agora. Serão os primeiros a crescer em um mundo onde a Inteligência Artificial é onipresente e a distinção entre online e offline é quase inexistente.

Tá, agora, como foi que eu amarrei a maçã do amor às minhas questões pessoais e ainda dei um laço com a Geração Z e o futuro?

Vamos lá. Primeiro, eu quero lembrar que o que eu escrevo aqui, no estrangera.com, vem da minha vivência e minha perspectiva de mundo. E, segundo, quero compartilhar com você esse verso, no refrão de Creep, do Radiohead:

Em português: “Mas eu sou uma aberração / Sou um esquisito / Que diabos eu estou fazendo aqui? / O meu lugar não é aqui.”

Adoro essa música. Adoro na versão da Macy Gray. Adoro como ela aparece em trilhas sonoras. Me identifico. Sou uma esquisita de carteirinha. E, nessa coisa geracional, me incomoda o fato de não levarem em consideração a localização geográfica, e nem o pano de fundo na vida dos indivíduos em cada um desses grupos. É como se a Geração Z do Brasil, dos EUA, da Nigéria e do Japão fossem as mesmas. Ou seja, basicamente, bastou a pessoa ter nascido dentro de um certo período de tempo que ela é aquilo e ponto.

Daí, eu tinha na minha sala quatro GenZiers, com histórias de vida que não poderiam ser mais diferentes uma das outras. Do quarto eu podia ouvir a voz de um deles competindo com o Thom Yorke no refrão de Creep. E daí, um coro: “But I’m a creep, I’m a weirdoooooooooo…”

Sorri. Essa foi a segunda conquista silenciosa da noite (veio depois da maçã do amor): meu adolescente, e os amigos dele, apreciam os clássicos da música. Ouvir o que eles estavam ouvindo aquietou uma das minhas angústias: Uff… gosto musical.

Resolvi que era hora de dar uma espiada na movimentação da sala. Será que eles queriam uma água?

Quando apareci por lá, estavam os quatro rindo e me pediram para usar o violão.

“Ok, mas daí posso ficar aqui um pouco com vocês?” Não resisti. Não só estava adorando a trilha sonora que eles escolhiam, mas agora teria a chance de ver uma performance! E a moçadinha super curtiu a ideia. Me receberam e já vieram cheios de perguntas sobre minhas quinquilharias espalhadas pela casa: o violão, os CD’s, o divisor/tapume/vision board, e meus livros.

“Qual o seu livro favorito?”

Diante desta pergunta, eu travei. Eu, que estava ali me sentindo a tia mais descolada do planeta, fui acuada por uma garota vestida de Pantera dentro da minha toca.

Sem graça por não saber o que responder, eu olhei em volta. Em todos os cantos da sala: livros, revistas, bilhetes colados na parede, letras em todas as paredes. Passei a mão na poesia reunida da Orides Fontella (que é minha conterrânea). Mostrei para ela uma das obras da Fernanda Young. Lembrei que gosto do Edgar Allan Poe. Falei da Clarice Lispector, da obra do Allan Poe traduzida e adaptada pela Clarice. Perguntei se ela conhecia Pollyanna? (Mas eu não lembro quem escreveu). Eu quis parecer cool. Extra cool.xtra cool.

Mas a verdade é que aquela pergunta meio que me desestabilizou. Dentre todos os livros que eu já li, qual o meu preferido? Tenho algum? Tenho mais de um? Ahh… e eu gosto de ler revista, jornal. Vale isso também? O que aconteceu? Que conversa é essa Geração Z?

Tóinnn…. a corda do violão estourou.

Uma distração. Uff… Saí de fininho e logo deu a hora de levá-los embora. O assunto do livro morreu ali. As visitas do meu filho foram embora. A casa voltou a ficar mais quieta.

Qual é o meu livro favorito? Não demorei para lembrar. Meu livro favorito é uma coletânea de livros. Devo admitir que eu tenho vários livros favoritos que, diferente da maçã do amor, não ocupam um pódio. Meus livros favoritos são favoritos porque me ajudaram a entender algo da vida real, via ficção. Meus livros favoritos contêm personagens que me despertaram empatia, me ensinaram alguma lição e, portanto, são parte do ser humano que eu sou. Mas tá, aqui vai: tem a Bíblia (uma coletânea de livros); têm a coleção “As Brumas de Avalon“, da Marion Zimmer Bradley; e tem “O Cordeiro“, de Christopher Moore. Nada de grandes nomes ou clássicos literários. São esses que ocupam minha lista de ficção/realidade favoritas.


Se a Geração Z é o futuro?

O futuro é agora. E agora, já é passado.

Porém, para responder essa pergunta de forma generalizada: Eu penso que a Geração Z é o futuro das gerações que a precederam. Tenho o privilégio de viver a diversidade e de acreditar na educação, e o privilégio de testemunhar o desenvolvimento de um ser humano que nasceu e vem crescendo nesse ambiente. Vejo, em primeira mão, o resultado do ambiente no desenvolvimento dele: os bons exemplos, os maus exemplos. A quantidade de tempo em frente à tela. As liberdades que ele tem. A entrada de religião. O amor. Muito amor.

Sendo assim, se a Geração Z é o futuro? Acredito que a resposta depende do olhar de quem responde. Eu acredito que sim, porque eu acredito na minha contribuição para esse “futuro.” E foi uma maçã do amor, o Radiohead, e uma conversa literária com uma turminha caracterizada por se comunicar via vídeo, que me ajudou a, figurativamente, “ver” isso.

📢 Para Continuar a Conversa:

E você? Qual é o seu livro favorito que te ensinou algo sobre a vida? Você concorda que o futuro é um presente em construção? Deixe seu comentário e vamos trocar ideias!

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📰 Life Update: Meu Texto na Revista Yokel

Essa daí sou eu no lançamento da Revista Yokel, em Lowville, NY. Continuar explorando as minhas caixinhas e desafiar estereótipos (tema central deste blog) me levou a escrever um texto na primeira edição da Yokel.
Para quem não sabe, Yokel em português se traduz “Jeca”. Meu texto na revista vem das minhas memórias e percepção em torno do personagem Jeca Tatu, conectando o Brasil e a vida de “caipira” (que me define!) à minha experiência estrangeira.

Para ler a matéria e conhecer a revista, clique no botão abaixo:

Maçã do Amor: uma reflexão sobre doces, memórias, e a Geração Z (parte 1)

Era noite de Halloween aqui em Nárnia. Uma típica noite de Halloween dessas de filme: escura, fria, com aquela chuvinha fina que vira névoa. Uma noite mais convidativa para ficar em casa, debaixo de uma coberta, com o foguinho da lareira faux complementando a iluminação ambiente.

Visual: Uma casa de madeira de dois anderas e sotão, moldada pela folhagem da arvore de mapple no jardim. Não tem muros ou grades. A casa fica no topo de um gramado. É um final de tarde de céu azul.

Porém: adolescentes!
E se você os tem por perto, saberá o que está por vir. É claro que o frio, o escuro e o chuvisco não os impediriam de caminhar pelas ruas da vizinhança entre máscaras e decorações que misturam o macabro e o fofo em busca de doces ou travessuras.

Pois então, nesse caso, eu não seria o impedimento.

Aqui em casa, já há algum tempo, entramos na fase em que os pais não precisam acompanhar a criança no passeio do Halloween. Então, às 18:25 daquela noite, soltamos “nossa” criatura junto aos demais.

Com o discurso de sempre: “_ Respeite o próximo. Presta atenção na rua. Qualquer coisa liga que estamos por perto. Não seja nem faça nada estúpido, ok?! Te amo!”

Dessa vez, o plano era de que eles viriam pra cá depois do truque ou travessura. Pizza. Filme. E a degustação dos doces arrecadados. Trocando para o linguajar deles, nossa casa seria o “hang out”!

Era pouco mais de 20:30 quando, pela porta da garagem, seguindo meu adolescente vestido de Soldado do Apocalipse entram em casa uma Pantera, uma Creeper (do Minecraft), e um Boy dos anos 80. Todos ensopados e, consequentement, congelados, mas cada um segurando uma sacolinha de doces. Por último, entrou o Barret, seco e com as pizzas.

Eles falavam alto, riam, contavam flashes das últimas duas horas na rua, do encontro com os amigos, das casas. Eu, que continuava quentinha aconchegada no sofa ao lado da lareira, levantei pra dar boas vindas ao grupo e pegar um pedaço de pizza.

Meu coração, que já estava feliz com a cena na copa e na cozinha, mal sabia o que ainda estava por vir.

Uma maçã do amor.

Vou te contar uma coisa sobre mim: sou fanática por maçã do amor, e tem que ser da vermelhinha. Sempre que posso, experimento uma. Tenho um ranking das melhores do mundo (baseada nos lugares onde já fui). Aquela da esquinha, no semáforo entre a Ademar de Barros e a Hugo Sarmento em São João (da Boa Vista, SP), ocupou por décadas meu pódium; mais do que o sabor – uma combinação perfeita entre o doce e a expessura da casquinha de açúcar com o azedinho da maçã – essa de São João carrega muita memória afetiva. Isabel! … Acho que o nome da mulher que fazia as maças era Isabel.

Acontece que, depois da última noite de Halloween, ela pulou para a segunda posição, que até antes estava ocupada pela maçã do amor no DisneyWorld – essa com uma proporção desbalanceada entre a expessura da casquinha e a maçã, porém com apresentação “quase” impecável, que entrega nas memórias da experiência.

E, daí, vem a maçã do amor das senhorinhas aqui de Nárnia. As senhorinhas na casa próxima a caixa d’água. Casa de livro. De filme. Fotografia que retrata uma perfeita noite de Halloween.

Essa maçã do amor entrou para um ranking flutuante, tipo nem-nem: nem no primeiro, nem no segundo, e também nem no terceiro lugar. Por unir o sabor da combinação perfeita entre doce e expessura, mais a experiência para conseguir um exemplar. E aqui, eu preciso explicar que essa é uma casa que mantém a tradição de entregar guloseimas feitas em casa, nada de doces embalados e industrializados. Além de maçã do amor, elas fazem bolas de pipoca caramelizada, brownie e cookies, e oferecem maça fresca, colhida do pé no quintal. Como o halloween cai durante o Outuno, as árvores estão trocando de cor, dando ainda mais contraste às noites frias; e as macieiras estão carregadas fazendo dessa a estação de cidras, tortas, e marinados.

Eu experimentei uma dessas maçãs do amor quando meu adolescente, ainda criança, foi de Exterminador de Futuro no halloween e, encantado com um KitKat não quis a única maçã da cesta. Foi amor a primeira mordia. O sabor da minha memória desbloquado. Com o frescor e vigor de uma fruta que, literalmente, fora do-pé-pra-calda.

Dali em diante, se o meu filho estivesse pelas ruas do vilarejo em noite de halloween, eu pedia que me trouxesse uma maçã das senhorinhas. Isso se eu não estivesse junto. Porque nesse caso, eu mesma ia até a varanda delas pedir uma.

Enfim, foram anos de zumbi, star-wars, e muitas variações com máscaras, capas, e chapéus, até que chegamos na noite de Halloween passada, dia 31 de Outubro de 2025.

Meu coração feliz: eles vieram pra cá to hangout.

Minha barriga, com fome, pediu um pedaço de pizza e eu sai do sofá pra participar do do rebuliço ao redor da comida.

Esse Halloween eu não fui. Não busquei. Não sai de perto da lareira. E, por estar cortando açúcar na minha alimentação, nem mencionei a maçã do amor das senhorinhas pro meu filho. E aí, enquanto me distraía entre escolher uma fatia de queijo ou pepperonni, o menino de máscara e capecete se aproxima e tira da sacola um saquinho de plástico amassado, grudado àquela fruta perfeitamente encrostada em uma camada de açúcar com corante vermelho _ “Pra você.”

Ouve um breve segundo de silêncio na cozinha. Expectativa. A Pantera, o Boy 80’s, a Creeper, e, claro, o Barret focaram em mim, com a respiração presa, já alertados para a possível (praticamente certa) reação subsequente. E, obviamente, não os desapontei.

Tenho amanhã pra pensar no açúcar. Comi pizza e, de sobremesa, apreciei minha maçã do amor enquanto revia meu pódium das melhores provadas até então. E aí que, essa pulou para a primeira colocação por me dar uma memória afetiva que trata de amor, de cuidado, e de atenção e combina tudo isso com um sabor proporcionalmente impecável.

E eu poderia terminar por aqui, feliz, realizada, sentindo que minha contribuição para o mundo está no caminho certo. Porém, a noite ainda me guardava outras surpresas.

Continua …

Com a barriga e o coração satisfeitos, fui tomar banho. A gente, os adultos, se retirou e deixou que os adolescentes continuassem seus planos. E esses planos envolviam ficar por perto da lareira pra aquecer os ossos.


Maturidade: a Geração Z é o Futuro

Na parte 2 desse texto, eu te conto sobre o que aconteceu na próxima hora da noite de halloween. E aproveito pra compartilhar outro momento da maternidade enquanto tento responder essa pergunta que veio como sugestão de pauta.

Tá procurando um podcast interessante pra ouvir, treinar o seu inglês, e ainda aprender uma parte da história super interessante?

Procura esse episódio do The Kitchen Sisters Presents, que fala sobre os imigrantes libaneses no Mississipi Delta e parte de sua influência na cozinha e na música da região.

Eu acho muito curiosa a participação da cultura e do povo Libanês nos países ocidentais, precisamente, as Américas como um todo. E como, embora muito prominente e importante, mantêm-se discreta e quase que imperceptivel.

E esse episódio, que embora fale sobre um lugar que eu nunca estive, me colocou dentro de casa.

Até a próxima. 🙂
G.D.Hoover

Dá licença, eu sou Troféu / Excuse-me, I am a Trophy

🇧🇷 Dá licença, eu sou Troféu

É de manhã. Eu já tomei minha primeira xícara de café do dia, já li o noticiário do Instagram (a.k.a.: fui ao banheiro), seguido pela tradicional checada no UOL e Apple News. Ainda de pijama, fui fechar a cortina do quarto do meu filho e peguei o cesto de roupas sujas. 

Estou transferindo as roupas dele para um outro cesto. É o que vai descer comigo as escadas de casa, com destino à lavanderia. Ali, no meio do corredor entre os quartos e o banheiro. Na banalidade da rotina, me dei conta. Isso é a vida que eu imaginei. 

Eu sou a mulher dentro da casinha azul, de telhado triangular, gramado verde e arvoresinhas no quintal que eu desenhava no jardim de infância. Essa é a vida que eu imaginei. Essa é a vida que eu escolhi. Nessa vida eu sou feliz. Empoderada. Eu conquistei aquilo que planejei e as coisas com as quais eu sonhei.  

Não evito o sorriso que brota nos meus lábios, tomada por uma onda de orgulho e satisfação. “É isso. Era sobre isso. É por isso.”

Então, me abaixo, pego o cesto abarrotado de roupa suja, o encaixo no meu quadril, e desço para a lavanderia. 

Agora, por que eu estou contando isso? 

Porque eu preciso tirar um mito da minha cabeça. Uma construção social que me repete de forma passiva-agressiva que sou um “fracasso”. Afinal, quando chega o final do dia, eu não tenho uma carreira como essas de revista. Eu escolhi a vida doméstica à profissional. 

E se somos nossas escolhas. Eu escolhi uma vida doméstica. Isso quer dizer que eu “não faço nada”? Pior ainda, será que virei o que a internet tem rotulado de trad-wife (esposa tradicional) ou sugar-babe? 

Não que eu deva à sociedade qualquer explicação, mas se você chegou até aqui nesse texto, eu vou continuar. Meu ponto é questionar essa leitura social de dona-de-casa. Quero ressignificar outro termo internético. É um termo com o qual eu prefiro me identificar. Esse termo é o de esposa troféu (ou trophy-wife, se vc prefere em inglês). 

Todos esses são termos pejorativos. Quero dizer, na maioria das vezes dentro da bolha em que eu vivo, são usados de forma pejorativa. Ou seja, com a intenção de diminuir e ofender a pessoa a quem se referem. E se você não os conhecia, deixa eu fazer um box aqui pra te atualizar. 

Sugar-babe serve para quem é financiado/a por outra pessoa, geralmente mais velha. Seu trabalho é, essencialmente, tocar a vida como um “enfeite de braço”. Em inglês, a expressão é arm-candy. Isso acontece sem que, necessariamente, haja um relacionamento. A trad-wife, esposa tradicional, cuida das tarefas domésticas e da administração do lar. Isto é feito de forma literal e figurativa. Enquanto isso, o outro faz a grana que sustenta a família. Nessa categoria, as mais tradicionais cultivam horta, granja, e uma família com no mínimo quatro crianças. Por fim, a trophy-wife (esposa-troféu) seria basicamente o mesmo de uma sugar-babe. No entanto, ela tem vínculos matrimoniais. Em outras palavras, ela é o enfeite da prateleira. 

Pois bem, aqui estamos: em pleno ano 2025 com um jeitinho retrô de 1920s. E eu, mais uma vez, gastando energia e tempo pra falar sobre esse tema. Tudo isso aconteceu porque uma pessoa próxima e “querida” acusou meu marido de ser meu “sugar-daddy”. Ou seja, essa pessoa me colocou na categoria de uma sugar-babe. No entanto, eu, claramente, sou uma esposa-troféu. 

Fiquei ofendida. Poxa!!! Deu um trabalhão pra chegar até aqui, e ela vem me chamar de sugar-babe. 

Querida…. Eu sou prêmio. Sou a cereja do bolo, o pacotinho de batata chips. Eu não derreto com chuva. Comigo é preciso inteligência, respeito, dedicação, astúcia, e sacrifícios. Eu sou de um lugar de minerais preciosos. Fui esculpida com muito cuidado e amor, e isso tudo só agregou valor ao prêmio.

Fato é: eu sou as minhas escolhas. E, entre tantas outras coisas, eu escolho ser troféu. 

Entendi muito cedo que meu meu melhor atributo não eram curvas, mas sim minha curiosidade. Minha gana em descobrir o que vem depois, como eu chego lá, quem vai. Sou inteligente, independente, sou bilíngue, sou latina, sou a filha dos meus pais. Eu gosto muito de coisas, mas minha bagagem é leve. Eu fico muito bem em casa, bonita na prateleira e na mesa da cozinha. Também me destaco em cima da pia, no tanque, no sofá da sala de estar, na cama, e na “casinha de sapê.” Só não se engane assumindo que é só ali que fico. Eu sou troféu errante, desses que são peça de exibição. 

Ressignificar esses termos é a minha forma de simplificar quem eu sou. Faço isso para aqueles que não conseguem ver além de rótulos sociais. Escrever sobre isso me ajuda racionalizar e olhar o que está bem debaixo do meu nariz: o meu sucesso. 

Que mais eu quero? 

Eu quero o silêncio das línguas cansadas,

Eu quero a esperança de óculos

E meu filho de cuca legal

Eu quero plantar e colher com a mão

A pimenta e o sal

(Casa no Campo, Tavito e Zé Rodrix) 

🇺🇸 Excuse-me, I am a Trophy

It’s morning. I’ve already had my first cup of coffee of the day, already read the news on Instagram (a.k.a.: I went to the bathroom), followed by the traditional check of UOL.com and Apple News. Still in my pajamas, I went to close the curtain in my son’s room. Then, I picked up the dirty laundry basket.

I’m transferring his clothes to a different basket. The one going down the stairs with me to the laundry room. There, in the middle of the hallway between the bedrooms and the bathroom, I realized something. In the banality of routine, this is the life I imagined.

I am the woman inside the little blue house, with a triangular roof, green lawn, and trees all around. The same house I drew in kindergarten. This is the life I imagined. Here is where my choices have brought me so far. In this life, I am happy. Empowered. I have achieved what I planned and the things I dreamed of.

I don’t hold back the smile that blossoms on my lips, overcome by a wave of pride and satisfaction.

“This is it. This was what it was about. This is why.”

Next, I bend down and pick up the overflowing basket of dirty laundry. I fit it onto my hip. And, finally, go down to the laundry room.

Now, why am I telling you this?

Because I need to get this constant thought out of my head. A social construct that repeatedly tells me (in a passive-aggressive way) that I am a “failure.” All because, at the end of the day, I don’t have a “so-called” career. I chose a domestic life over a professional one.

And if we are our choices, and I chose a domestic life, it means I don’t have a professional one. It means that I “do nothing.” Worse, I’ve become what the internet has labeled a “trad-wife” or a “sugar babe.”

Not that I owe society any explanation, but if you’ve made it this far in this text, I’ll continue.

My point is to question this social interpretation of a “housewife.” I also want to redefine another internet term with which I prefer to identify: the trophy wife.

This term, like the other two, is pejorative. I mean, most of the time within the bubble I live in, they are used pejoratively. That is, with the intention of diminishing and offending the person to whom they refer. And if you didn’t know them, let me create a little box here to bring you up to speed.

“Sugar babe” is used for someone who is financed by another person, usually older. Their job is, essentially, to go through life as “arm candy.” There isn’t necessarily a relationship between them. The “trad-wife,” or traditional wife, handles the domestic chores. She manages the home, cares for the kids, bakes, churns, and cleans. Meanwhile, the other spouse makes the money that supports the family. Finally, the “trophy wife” is basically the same as a sugar babe with matrimonial ties. She serves as an ornament on the shelf.

Well, and here we are: in the middle of the year 2025 with a retro 1920th vibe. And I, once again, am spending energy and time talking about this topic. This situation arose after a close and “dear” person accused my husband of being my “sugar daddy.” This accusation put me in the “sugar babe” bracket, which bothered me, since I am clearly a trophy wife.

I was offended.

Damn it! It took a lot of work to get here, and she comes and calls me a sugar babe.

Darling… I am a prize. I am the cherry on top, the little bag of potato chips. I don’t melt in the rain. With me, you need intelligence, respect, dedication, cunning, and sacrifices. I come from a place of precious minerals. I was sculpted with great care and love, and all of this only added value to the prize.

The fact is: I am my choices. And, among many other things, I choose to be a trophy.

I understood very early on that my best attribute was not my curves, but my curiosity. My drive to discover what comes next, how I get there, and who is going. I am intelligent, independent, bilingual, a Latina, and the daughter of my parents. I like many things, but my baggage is light. I do very well at home. And, just like a prize, I look beautiful on the shelf and on the kitchen table. You can find me on top of the counter and in the laundry sink. I’m also on the living room sofa, in bed, and in the little shack.

Just don’t be mistaken in assuming those are my places. I am a wandering trophy, the kind that is an exhibition piece.

Redefining these terms is my way of simplifying who I am for those who can’t see beyond social labels. Writing about it helps me rationalize and look at what is right under my nose: my success.

What more do I want?

“I want the silence of tired tongues

I want the hope of glasses

And my son with a cool head

I want to plant and harvest with my own hand

The pepper and the salt”

(Casa no Campo, by Tavito and Zé Rodrix)