visual: foto mostra uma mão segurando um frasco de medicamento de estética americana. Na bula: sertraline (Zoloft)

Meu céu azul nos dias nublados

Ahhh, saúde mental. Demorou, mas aqui estou pra falar de você.
Não, profissionalmente. Claro, não sou da área e nem conheço os pormenores desse campo profissional. Por isso mesmo, me abstenho de dar declarações ou de escrever sobre. Acontece que eu tenho um monte de gente do meu ciclo — de irmã à filha adotiva — que fez da saúde mental sua vida profissional e intelectual. Então, não só ouço muito sobre o assunto, como também fico ligada às questões de cunho social que a saúde mental aborda.

A Nathi, por exemplo, é terapeuta ocupacional na rede CAPS. A Mari, entre tantas outras coisas, tem um trabalho de formação para egressos do sistema carcerário, que mistura culinária e psicologia, para trazer esse pessoal de volta ao mercado de trabalho. Diferentes gerações. E ambas compromissadas em garantir que a saúde mental faça parte da integração do indivíduo à sua própria condição de “ser” humano. O trabalho delas é super interessante, porém esse não é meu ponto de vista hoje.

Hoje, eu falo de um campo pessoal. A minha relação com a saúde mental: como esse tema faz parte da minha vida e como demorei pra me aceitar como paciente. E, pra finalizar, sobre a diferença que fez na minha qualidade de vida, o dia em que eu finalmente aceitei.

Então vamos lá. Vou tentar ser sucinta e já adianto que o final feliz vem medicado.


Isso é coisa de…

Você já assistiu a um filme chamado “Real Women Have Curves”? (“Mulheres Reais Têm Curva?)

Esse filme retrata a vida de uma jovem mexicano-americana e seus conflitos para se encaixar em duas culturas tão próximas e tão distantes. Todos os pontos do filme são válidos e são apresentados de forma gostosa de assistir. Porém, foi um deles que me tocou de forma diferente: a relação da personagem central com sua família, mais especificamente com as mulheres dela — a influência dessas mulheres na formação dela e a relação entre o que “se espera da” e o “ser a”.

Em vários momentos do filme, eu ouvi minha mãe; em outros, minha avó. Assisti a outras pessoas interpretarem cenas como se tivessem sido tiradas de uma tarde da minha adolescência, entre café e bolo de cenoura. Ainda que o cenário fosse diferente e que minhas condições socioeconômicas tenham sido mais privilegiadas que as da personagem, houve ali, na história da vida dela, muitos momentos que bateram com a minha.

O fato é (e sejamos francas): mulheres latinas são super “judgy” e competitivas. Para o bem e para o mal.

E foi nesse contexto, que nasceu minha primeira perspectiva sobre saúde mental:

  1. Depressão é coisa de gente infeliz.
  2. Ansiedade é falta de ter o que fazer.
  3. Problemas relacionados à atenção: é coisa de criança sem limites.
  4. Terapeuta é coisa de quem tem dinheiro sobrando.
  5. Remédio pra “cabeça” é coisa de louco.

E assim, fui crescendo. Me desenvolvendo. Me separando das minhas primeiras referências e entrando no mundo com cara e coragem. Vieram hormônios, viagens, faculdade, mudanças, primeiros empregos, grandes paixões e desilusões amorosas proporcionais, crises políticas, crises econômicas, crise climática, pagamento atrasado, imposto. Veio vida de imigrante, filho, mais hormônios, hormônios diferentes e… o baile continua.


É interessante analisar a diferença de nuance entre as expressões “se espera da” e “ser a”, principalmente no contexto da expectativa versus realidade feminina. Em “o que se espera da mulher”, o artigo definido “a” (precedido pela preposição “de”, que contrai com ele formando “da”) atua para generalizar, apontan
do para a mulher como categoria ou arquétipo social sobre o qual recaem as expectativas. Ou seja, ele define o alvo das normas. Por outro lado, em “o desafio de ser a mulher real”, o artigo “a” isolado cumpre uma dupla função: mantém a definição do sujeito (aquela pessoa específica) e, ao mesmo tempo, ao ser justaposto à palavra “mulher”, reforça a ideia de unicidade e de essência— a de ser A própria realidade que desafia a expectativa genérica. Assim, a presença do artigo “a” em ambas as frases é crucial: primeiro, delimita a categoria (“a” esperada) e, em seguida, define a individualidade que emerge (“a” que realmente é), transformando-se num marcador sutil, mas potente, da tensão constante entre a norma social e a identidade feminina particular.

Ajuda do Gemini para o meu prompt.

Maria, Maria …

Sabia que o nome Maria é o mais popular entre as mulheres no mundo? E eu, que, profissionalmente, assino Gabi, de Gabriela, nasci Maria, numa família de Marias, assim como tantas milhares de outras por aí.

Foi durante essas fases da vida que comecei a perceber algo fora do equilíbrio. Às vezes, me batia uma sensação de estranheza diante do mundo, uma sensação fora do lugar que eu não sabia explicar, que não era tristeza, mas que me tirava a vontade. Enquanto isso, do lado de fora, meu processo de nacionalização americana prosseguia.

Foi um período nebuloso pra Maria em mim, com emoções à flor da pele e muitos ajustes, entre eles a prescrição da sertralina. E, ainda, uma pandemia global e eu finalmente estabelecendo uma conexão com uma profissional de saúde mental — aka terapeuta.

Entre Maria e Gabi, porém, ecoavam: “remédio é coisa de gente louca”, “depressão coisa de quem não tem o que fazer”, blá-blá-blá. Na primeira oportunidade, quando tudo parecia ajustado, eu parava de tomar o “meu remédio”. Por quê? Porque sim, eu não estava triste, deprimida ou sem o que fazer. E, portanto, não preciso/ava do remédio.

Até que… assim como um dominó, minhas emoções desmoronavam: uma a uma.

Foram longas conversas com a minha terapeuta e com o meu farmacêutico favorito, e algumas mais curtas com o meu médico-geral, que foi quem me prescreveu o medicamento, até que eu finalmente quebrei com as “coisas de” que me prendiam.

Tudo de que eu precisei foi olhar para a minha própria situação sob outra perspectiva. Uma perspectiva que 1. não vilaniza o uso de drogas para uma melhor qualidade de vida; e que 2. não olha para a saúde mental como uma “coisa de”.

É possível, sim, ser feliz, mesmo vivendo com sintomas que me colocam na caixinha da depressão e da ansiedade. Assim como é possível para uma pessoa com outra doença crônica (como, por exemplo, colesterol, diabetes, hipertensão) viver plenamente, administrando sintomas com remédios e fazendo boas escolhas no seu dia a dia.

Ou seja, eu sou doente mental (acho que assim não pode mais falar)… ok. Consultei o Gemini e o correto é: pessoa com transtorno mental. Sou mesmo. Sou, sim. Más controlada.


A flibbertigibbet! A will-o’-the-wisp! A clown!

from the song Maria, on The Sound of Music.

Como resolver um problema como Maria? Como pegar uma nuvem e prendê-la? Como encontrar a palavra que signifique Maria? Uma tagarela! Um fogo-fátuo! Uma palhaça!
Tanta coisa que você gostaria de dizer a ela, Tanta coisa que ela deveria entender. Mas como fazê-la ficar E ouvir tudo o que você diz? Como manter uma onda na areia?
Ah, como resolver um problema como Maria? Como segurar um raio de luar na sua mão?


Azul como o céu que me encanta

Eu tenho um tio que me apelidou de Bicho Grilo – Bêgê – pra simplificar. A razão dele era simples: eu sou um ser da paz, que prefere soluções mais naturais às criadas laboratorialmente, e tenho um estilo meio “hippie de ser“. Eu gosto de uma graminha, porém minha maior droga se chama FAST-FOOD: amo batata frita, bacon e Big Mac. Eu dificilmente tomo remédio pra qualquer coisa, o que acaba sendo ótimo, porque quando eu preciso mesmo, eles fazem efeito rapidinho.

Reparou que batata frita, bacon e Big Mac começam com a letra B? Então, outro grande vício que eu tenho é um cara chamado Barret, que, assim como “boys”, também começa com B. Ocorre que ele é farmacêutico e meu marido. E daí, quando eu “sem querer” (querendo) parava de tomar o meu remédio (a sertralina), ele manjava.

Imagem informativa destacando os sinais de alerta da Síndrome de Descontinuação ao parar de tomar sertralina, com ênfase em sete categorias de sintomas.

Isso porque a sertralina (um inibidor seletivo da recaptação de serotonina – ISRS) modula a ação da serotonina no cérebro. A serotonina é um neurotransmissor fundamental no sistema nervoso central, atuando como um maestro químico para regular o humor, o bem-estar, o sono e o apetite. Em certas condições, observa-se uma diminuição na disponibilidade dessa substância nas sinapses. E é aí que entra a sertralina, bloqueando a reabsorção da serotonina de volta para o neurônio que a liberou. Ao impedir essa recaptação, o medicamento eleva a concentração e prolonga a ação da serotonina no espaço sináptico, ajudando a restaurar o equilíbrio químico e a aliviar os sintomas associados à deficiência desse neurotransmissor.

E aí, como você pode ver no quadro ao lado, esse desequilíbrio repentino pode causar sintomas que vão de “sensação estranha” a tremores e sudorese excessiva. No meu caso, os sintomas 3 e 7 apareciam no intervalo de semana, e o sintoma 1 geralmente aparecia quando me esquecia por dois dias consecutivos. É assim, rapidinho.

Lembra que eu citei o dominó? Pois bem, o ciclo começa com a prescrição da sertralina para regular algo que, por diversas condições, se desregulou. Nesse caso, uma química importante que atua no nosso sistema cerebral. Uma vez que a química está regulada, a gente (paciente) passa a se sentir melhor. A vida fica mais colorida, a gente tem mais disposição e foco, e aquelas emoções intrusivas deixam de pipocar no seu dia. Contente, a gente entra em conflito com a medicação, afinal, “remédio é coisa de”. E, assim, vamos esquecendo de tomar, esquecendo, esquecendo… Vem um resfriado, uma dor de cabeça. Passam uns dias. Daí, um dia, o céu amanhece nublado; vem um dia mais friozinho. Chove. E… do nada, você está chorando no meio do banho. E, na ensolarada manhã seguinte, quer dormir até anoitecer.

Quando eu digo “meu céu azul”, estou fazendo uma alusão ao tom azul do meu comprimido, que é como o de um dia ensolarado. E a maior parte do meu “desequilíbrio” ocorre entre novembro e março, quando, onde eu moro, a temperatura fica em torno de 0 graus. Dias curtos, noites longas. Não por acaso, eu deixava de tomar meu remédio justamente nos meses de verão por aqui, quando os dias terminam depois das 21 horas.

Enfim, não quero, com esse texto, glorificar nada que tenha a ver com a saúde mental, nem o papel que os medicamentos desempenham no seu tratamento. Porém, ao escolher compartilhar a MINHA experiência, quero chamar a atenção para estereótipos e para a presença subliminar desses ao longo da nossa formação e para a forma como vemos o mundo. Por conta de meus próprios pré-conceitos, eu teimei contra meu tratamento. Precisei mudar minha perspectiva pra entender melhor minha própria condição (doença). Hoje, com o envolvimento de TRÊS profissionais da saúde, entendo que meu remédio é fundamental para a minha qualidade de vida.

E assim eu sigo na paz de quem sabe que está fazendo o que pode, como pode, onde pode e com quem pode. Sem amarras, mas medicada.

Eu não prescrevo nada, mas posso indicar literatura. Então aqui vão três livros que fizeram uma diferença tremenda pra minha perspectiva sobre saúde mental; e sobre como eu falo e apoio causas relacionadas à luta antimanicomial e ao acesso ao cuidado e ao acompanhamento profissionais para todas as camadas socioeconômicas. Os três são documentos investigativos escritos por jornalistas. Histórias reais, de investigações reais, com personagens, checagem e todo o borogodó que envolve um trabalho de apuração jornalística.

A Jornada de Voltar a Escrever

Por que eu parei de escrever? Tenho me feito essa mesma pergunta há quase quatro anos. No princípio pensava que era algum tipo de ‘bloqueio criativo’, mas também me recusava a entrar nessa caixa. Daí me acomodei com a preguiça de escrever. Me soava uma explicação honesta, fora da caixa. Porém perigosa, pois me colocava num lugar acomodado. 

Foram meses (e meses). Aí voltei para o ambiente do trabalho tradicional – escritório, ponto, carga horária, hora extra, chefe, relatório, festa da firma, e retreats -, tudo isso em inglês, que é o idioma de onde eu moro. E, assim, deixei de escrever de vez. Com um motivo legítimo e inquestionável. 

No meu trabalho eu escrevia. Não sobre o que eu gosto, nem mesmo sobre assuntos que domino. Minha escrita era engessada, desconfiada, e – o pior – dentro da caixinha chamada ‘compliance’.  

Nesse entretempo, o planeta terra continuou girando em torno do sol. Os meses viraram anos. Tivemos pandemia, blizzards, viagens, perdas e ganhos. Meu cabelo clareou. 

Aquela eu que tinha deixado de escrever, não era mais a mesma. E a nova eu, mesmo diferente, ainda gostava de escrever. 

Voltei a me perguntar: por que eu parei de escrever?

Levei o assunto pra terapia. Até que… todas as letras que contive presas entre meus pensamentos e meus dedos não couberam mais nesse curto espaço e explodiram. 

Guébie, a estranha

Não é fácil se adaptar no estrangeiro, especialmente quando a gente AMA a nossa terra natal. Já tenho mais de 15 anos aqui. Já passei por todas as provas sociais que me permitem ser ‘local’ e, mesmo assim, sou tão estrangeira nessa terra, quanto essa terra é para mim. 

Por que eu deixei de escrever? 

Porque sim. Porque minha vida foi entrando por outros caminhos, e eu me permite segui-lós pra ver onde iria. Eu deixei de escrever para explorar outros formatos, outros idiomas, e uma outra Gabi (que em inglês soa Guébie e escrevem Gabby). 

Deixei de escrever em português, para aprender a escrever em inglês. Mas acabei aprendendo que não escreverei certo nem em uma e nem em outra se eu não escrever. 


visual: desktop out of focus.

Das coisas que não publiquei (Parte 2)

Escrevi o texto abaixo para fazer meu balanço de 2024. Guardei.
Acho que esse é um momento oportuno para resgata-lo do meu bloco de notas e colocar assim, ao vento cibernético.


2024

Não quero fazer textão, mas não posso deixar passar minha reflexão de 2024 (escrito em 31 de Dezembro de 2024).

Hoje é meu primeiro dia em uma nova fase de vida sem vínculos empregaticios. Começarei 2025 leve e completamente dona de mim. 

Pensando sobre ciclos e jornadas, sobre movimentos, sobre minhas idas e vindas. 2024 foi um ano de realizações. Ironicamente, e porque vivo uma vida bilíngue, foi um ano de realizações em português e ‘realizations’ em inglês. 

2024 foi um ano que começou bem e que fluiu como planejado. Mas daí, lá por meados do ano, algo mudou. Me percebi olhando mais pra fora, que pra dentro, e querendo mais de coisas que preciso de menos. Senti no físico o peso de uma angústia que não é minha. E enquanto isso, tic-toc, o relógio continua. 

Acho que perdi um pouco de empatia durante esse ano. Por razões que, por agora, não sei colocar em palavras. 2024 foi um ano sociológicamente cansativo. 

Em 2024, nós (eu + minha família) rodamos. Entramos o ano com a familia do Brasil, visitamos e recebemos amigos, fotografamos corrida de bicicleta, casamentos, gente, bichos, comidas e autos. A gente realizou a viagem mais nerd (e, diga-se de passagem, mágica) da nossa vida. Conheci Las Vegas e achei overrated. Passamos o ano saudáveis, não atrasamos as contas, e a geladeira só sofreu porque tivemos preguiça de ir ao supermercado. Pra finalizar e colocar uma cereja no bolo: ainda consegui trocar minha moto pelo modelo que tinha colocado como objetivo.  

Enfim, como disse no começo: um ano de realizações. 

Porém, tudo isso possível, claro, abrindo mão de algo que, para mim, é essencial: equilíbrio. 

E eis que a luz da ‘realization’ (plim) acendeu. Felizmente, antes do fim do túnel. 

As vezes, quando a gente ganha a gente perde. 

A palavra ‘realization’ em inglês pode, entre outras traduções, estar relacionada à percepção, constatação de algo. Em português, ‘to realize’ é o verbo constatar. 

Ou seja, em 2024 cheguei a importantes constatações sobre mim. Constatações tipo estas: eu sou competente pacas, mas não sei equilibrar profissional e doméstico; eu tenho dificuldade em falar ‘não’ e, consequentemente, fico com um monte de projeto pela metade; eu cheguei até o tão falado ‘lá’ (pelo menos dentro dos parâmetros que estabeleci pra a minha vida).  

Em 2024 constatei que minha ambição profissional é ter e ver meu trabalho publicado com meu nome na capa. Pronto. Do mais, quero é cuidar do meu jardim: regar as plantas, aparar as beiradas, trocar óleo, polir o vidro, guardar a decoração de Natal.  

Enfim, eu constatei que meus valores mudaram, meu foco mudou, a carreira que há vinte anos fazia tanto sentido, hoje não se encaixa. Sou outra. E constatei que meu grande e absoluto Poder esta no meu ‘poder escolher’. Privilégio maior desconheço. 

Sim, escolher deixar um emprego estável pra voltar a administração doméstica não remunerada é pra mim um previlégio enorme. Pois ele só é possível porque: 1. tenho apoio e amparo emocional e financeiro; 2. deixar um emprego, não significa deixar de produzir. 

Portanto, para 2025 ao invés de retreat, eu toquei o restart. Sem amarras. Sem destino. Sem agenda. Sem horários. Quero fazer as ‘pazes’ com minhas ideologias, e, dar asas para minha criatividade. Para 2025 quero retorno e recomeço. 

Cantoflorvivência!