Cidadã da terra

Em Junho serão dez anos que sai do Brasil. Enfim, agora eu sou também Americana. UAU. Essa parte da minha exploração de vida foi território desconhecido, e putz…. foi dificil de assimilar.

Entenda, para mim, essa questão de outra cidadania era mais profunda que estudar, passar na prova, ir ali e fazer um juramento. Sou uma pessoa leal, e embora esteja triste e desapontada com os rumos que o Brasil vem tomando – mais sob o ponto de vista social, porque politicamente eu desisti há 12 anos -, tenho orgulho e um amor tremendo por minha terra verde e amarela. Dai a colocar outro território dentro dentro desse pacote. UAU… foi mentalmente hardcore. 

Mas quer saber: eu fui lá, eu fiz. Sozinha.

E tudo isso, enquanto passava por aquele momento super clichê na vida de uma stay-at-home mãe, que acabou de fazer 40 anos, e que optou super pela vida doméstica. Mas… que agora quer novos propósitos de vida, uma nova carreira talvez, e não sabe bem o que, onde, como, e quando fazer.

Ha! É “sarna pra se coçar” que chama, né? 

Felizmente, quando eu comecei com a “sarna” ou com essa vontade de mudar, que é bem pessoal, dois elementos já me eram bem definidos: por que e por quem a mudança. Fato é: Brasileira ou Americana, meu coração encontrou seu lugar, num canto enfiado numa floresta, próximo do Rio que deságua no mar. Aqui faz frio igual o Alaska, tem pica-pau e urso igual do desenho, ônibus escolar amarelo, Amish, Maple Syrup, foi inspiração para clássicos do Bob Dylan, e tem um espetáculo da natureza chamado Outono.  

Demorou um pouco pra eu entender que meu território desconhecido, na real, estava mais relacionado com um re-posicionamento pessoal e profissional, do que com o fato de passar por todo o processo de naturalização.  Foi como dizer “adeus” para uma parte de mim, para dar espaço ao novo, à nova. Foi como perder para ganhar. My personal Waterloo (ai ai ai… ABBA songs). 

Explico.

Sabe lá no começo, quando eu te falei que tenho um estranho hábito de começar de tras pra frente? Então… Minha história com esse pais começa muito lá atras, antes mesmo de eu saber quem eu era. Tem relação com meu amor por cultura pop, por cinema, por televisão, por rock n’roll, pela arte do storytelling e a revista Rolling Stones; minha admiração por pessoas como Walt Disney, o Hugh Hefner (guilty), a Oprah e a Ellen DeGeneres; a Nora Ephron (suas histórias e personagens); e até minha frustração por não vestir bem um jeans Lewis 501.  

Minha história com os EUA vem da minha admiração por seus preceitos de liberdade e igualdade (mesmo sabendo que a, as vezes, realidade não é bem assim). 

E ai como se não bastasse isso, foi aqui que aprendi pilotar moto, e nasceu aqui aquele com quem minha alma se aquietou. Coisa de amor ninguem explica. Tenho quatro amigas brasileiras aqui. Regulamos em idade e consequentemente geração. Somos felizes consequencias de uma juventude vivida durante os anos 90. Todas nós nesta terra inóspita, de duros invernos. Aqui porque nos apaixonamos por um garoto do North Country. Um amor desses pelo qual vale a pena jurar lealdade.

Então eu deixei meu cabelo crescer. Hibernei com a floresta, e fui entendendo a troca de estações: as cores do Outuno, o silêncio do Inverno, a renovação da Primavera, e a liberdade do Verão. Reconheço os ciclos. Eles se repetem, eles se renovam….

“Cantoflorvivência”

(Tempo, de Orides Fontela).

Esse não foi, e nem é, um caminho fácil. Escolhas tiveram de ser feitas, e consequencias vieram com elas (boas e ruins). Porque a vida é assim mesmo, as vezes a chuva estraga a festa. Mas a gente precisa dela, no matter what.

A vida imita a arte, porque a arte é feita a partir da vida. Não me iludo acreditando que já conheço o fim, o que eu faço é imaginar e criar meu caminho. Se minha alma se aquietou, minha criatividade ganhou o estímulo do novo. Na floresta, aprendi ouvir o silêncio – o “universofluxo”.

 Quero comunidade, quero amor ao próximo, respeito e igualdade. 
Vou com foco, força, e fé.
Você que acompanha o eSTRANGERa.com deixa aqui um comentário. Já pensou em mudar de país? Se sim, por que? O que mais te assusta ao encarar a possibilidade de vida nova? 

Meu “a-ha moment”, ou “O dia que soube que era hora de mudar”

Era Setembro de 2008. Minha versão de 30 anos estava engarrafada no transito da Rebouças, em São Paulo capital, num dia de chuva, em uma época de cumprir pautas e alcançar metas, sem criança, sem hora do jantar, sem um lar. Com exceção da parcela do FOX 1.0, eu, na teoria, era livre, leve, e solta.  #SQN  

A realidade era dura. Eu estava sem qualquer perspectiva na minha carreira; minha vida amorosa caminhava para um drástico fim, criança “nem pensar”, e o lugar em que eu passava menos tempo era justamente aquele que eu queria conhecer melhor: minha vida. Então foi ali mesmo, engarrafada no trânsito, ironicamente entre a Av. Brasil e a Estados Unidos, que veio a epifania: “Isso não é vida”. 

Aos 30 anos, eu estava onde a Gabi de 20 planejou estar, e minha única certeza era a de que essa não era a vida que a Gabi de 40 planejava.  

Eu acredito que o Universo trabalha de formas misteriosas, e sempre em nosso favor. Mas existem decisões que são individuais. Certo? Já reparou que sempre chegamos em um momento de decisão crucial em nossa vida. Aquela decisão que vai mudar os resultados no futuro. 

Enfim, cresci Católica e é via catolicismo que minha fé se manifesta. Eu acredito em mensagens e na comunicação com o Divino, mas não foi sempre assim. Essa última parte foi acontecendo devagar, sem me assustar. Assim como uma criança começa falar. 

Depois daquele dia na Rebouças, eu passei a imaginar o que seria viver sem transito, imaginei uma rotina mais saudável, com caminhadas, saladas, e grama. Pensei na minha carreira e nos próximos cinco anos. Pensei na Espanha, eu queria muito conhecer a Espanha. Diariamente, eu imaginava e fazia planos para ajustar o futuro de acordo com o meu presente. 

Abri minha mente e meu coração para que a razão e a emoção pudessem trabalhar juntas. Fé, força de vontade, e coração do bem SEMPRE. Porque energia ruim bate e volta quando nos rodeamos de boas intenções. 

Então se você leu até aqui, obrigada! 

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Estamos em Setembro e as aulas voltaram. Minha rotina está se ajustando – novamente – e eu não pretendo deixar a eSTRANGERa em mim calada. 

Os planos continuam. Coincidentemente eles se materializam melhor durante os longos invernos aqui de Narnia, quando não tem grama pra cortar, flor pra aguar, moto pra passear, e criança pra guiar. Faz parte do meu trajeto nessa jornada de aprender “Trabalhar em Casa”. Planejamento é tudo. No meu caso, tem sido preciso analisar como as estações do ano afetam a rotina da minha família e, consequentemente, a minha. P

Porque se tem uma coisa que eu descobri é que a Gabi de 30 anos adoraria conhecer a Gabi de 40.

Até a próxima! 🙂

 

#trabalharemcasa: Um update da situação

Agosto.

Vou te contar logo de cara que me sinto uma trapaça. Que nos últimos meses tive dois momentos de pânico. Que sou uma mistura imperfeita entre motivação e procrastinação. Que meu nível de empatia chega ser tão alto, que ao invés de ajudar me atrapalha. Que eu bloqueio na hora de falar “não”. E que, embora meus planos estejam super atrasados e eu sinta o peso de uma culpa invisível nos ombros, aqui estou pra respirar fundo e te dizer: está tudo bem. 

Essa aí acima é a Gabi eSTRANGERa, Jornalista metida a Socióloga, um liquidificador de opiniões, conectada aos hemisférios Sul e Norte das Américas. Com ela, convivo eu, a Gabi, Dona-de-Casa assumida, reinventando a carreira enquanto, literalmente, administra a família do meio da Floresta em uma terra de “very” diferente costumes. 

Sendo assim, pra você que me acompanha, aqui vai um update do Verão: 

  • meu Desafio mensal pra te mostrar as Estações do Ano sob a minha perspectiva ainda não Rolou (mesmo assim estou colecionando fotos pro mesmo).
  • tenho uma dúzia de material gravado pra editar no Brammoto. Quando conseguirei?… saberá Gzus. 
  • também tenho uma lista de pautas pra pesquisar e escrever; e duas entrevistas que já rolaram e precisam ser escritas;
  • Prioridades né? … 😂 .. sim, eu priorizei meu “profissional”, até que …
veio a vida atropelando.

 … a Primavera e o Verão, propícios para longos passeios de moto, cortador de grama, barco, SUP, e idas à sorveteria; uma crise na saúde do Mr.; Férias Escolares (em Nárnia: 3 meses com o filho em casa. Chupa essa manga, você com filho pequeno no Brasa que conta os dias pras férias de 4 semanas acabarem).

Enfim, prioridades profissionais foram bombardeadas pela vida e outros compromissos para os quais eu não soube dizer NÃO. 

Eu sou uma Escritora sem ISBN. Uma Jornalista que só assinou Press Releases. Uma Fotógrafa frustrada. Um baú de experiências e contos profissionais que, believe me, irão te surpreender. Meu nível de confusão (mental) é tanto que, para você ter uma idéia, assinei “Creative Mind” (mente criativa) em meu último cartão profissional. 

Vim aqui de peito aberto te passar a real.

Você me deu um pouco do seu tempo, lendo o que eu escrevi, colocando um “jóinha” ou um “coraçãozinho” no meu post. Longe de mim te fazer pensar que tudo é paraíso na vida de quem escolhe “Trabalhar em Casa”. Fatos: os desafios são muitos. A começar pelo retorno financeiro, no meu caso ainda inexistente; e tem as interferências e tentações do lar (ora boas e oras ruins), por todos os cantos.

Daí que mesmo diante de toda essa bagunça, posso dizer:

está tudo bem! 

Estou em minha vida onde eu quis e quero estar. Acredito que só cheguei até aqui porque um dia entendi que Tudo não dá; que é “ok” abrir mão de um lado para receber de outros; decifrei o código dos pesos e medidas. Com fé, força de vontade, e coração do bem, tudo se encaixa e acontece na hora certa. 

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Eram quatro folhas. Continuam quatro corações.